Termos uma maior aproximação com a segunda maior economia do mundo não deveria ser um problema. Afinal, são mais de 1,3 bilhão de consumidores e uma taxa de crescimento que tem superado os 5% de média anual pelos últimos 20 anos. Mas recentemente essa aproximação tem sido acompanhada de um viés fortemente ideológico, que tem incluído o afastamento dos Estados Unidos.
Enquanto a economia exige pragmatismo e deve ser baseada em números, no que cada parte de uma relação entre países pode trazer de vantagens à outra, a política tem de ser baseada em diplomacia, em negociações conduzidas com cuidado e estratégia.
No entanto, o governo não tem agido dessa forma em nenhuma das frentes, o que é preocupante.
O perfil de consumo de China e Estados Unidos
Mesmo sendo atualmente o maior parceiro comercial do Brasil, a China consome basicamente nossas commodities, como minério de ferro, petróleo, soja e carne, sem contribuir de forma relevante na compra de produtos de maior valor agregado. E enquanto exportamos commodities, importamos produtos acabados de ferro e aço que poderiam ser produzidos em nosso território, além de inúmeros outros de maior tecnologia.
Por outro lado, os Estados Unidos importam bens acabados, o que tem extrema importância na manutenção de nosso já reduzido parque industrial. Sem as compras dos Estados Unidos, passaríamos por grandes dificuldades em setores como siderurgia, aviação, máquinas e motores e componentes eletrônicos.
Os investimentos no Brasil
Mas além da questão ideológica, balança comercial e setores envolvidos, a análise das implicações da aproximação com a China deve se estender também aos investimentos estrangeiros no Brasil. Nesse aspecto, temos um ponto muito crítico, uma vez que os Estados Unidos são o país com a maior presença em investimentos em solo brasileiro, cerca de oito vezes maior do que os investimentos feitos pela China. Em 2023 foram US$ 357,8 bilhões contra US$ 44,9 bilhões.
Os EUA lideram em setores de manufatura, tecnologia e serviços financeiros, enquanto a China é dominante em energia (eletricidade, petróleo), infraestrutura e, mais recentemente, indústria automotiva (veículos elétricos) e consumo interno (varejo, serviços).
As parcerias atuais
Por fim, a aproximação com a China, em função da ideologia citada no início, vem em um pacote que inclui Rússia, Cuba, Venezuela e Irã, em um claro e cada vez mais profundo confrontamento com os Estados Unidos. Um movimento que, associado a decisões recentes da justiça suprema do país e que geram grande insegurança jurídica, afugenta investidores e coloca o país em uma categoria na qual não poderíamos, como nação, estar. O Brasil, que construiu um histórico diplomático respeitável no mundo todo, defensor da paz e dos direitos humanos, nos últimos anos vem se associando a países reconhecidos como ditaduras, e sua defesa de democracia e paz tem ficado na retórica.
As discordâncias com o atual presidente dos Estados Unidos podem até explicar as tarifas recentemente adotadas às importações dos americanos de produtos brasileiros, parte pela perseguição do judiciário a adversários políticos de lula, parte pelo constante confrontamento que faz ao presidente.
As consequências
Estamos, no entanto, às vésperas de sofrer sanções tanto dos Estados Unidos quanto da União Européia pelas importações de óleo diesel da Rússia: estas aumentaram enormemente com lula e são vistas como uma forma de apoio ao regime de Putin na guerra contra a Ucrânia. Estamos, portanto, financiando o agressor e nos firmando ainda mais como apoiadores de ditaduras ao redor do mundo.
Conclusão
A diplomacia não é feita de confrontos, a economia não aceita desaforos, e o Brasil deixou de seguir princípios básicos do relacionamento entre países. O que nos resta é pressionar os políticos que elegemos para que exijam uma mudança de rumo, além de reduzir os efeitos de eventuais sanções, tarifas e agravamento da situação com a diversificação internacional.
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