Em dezembro de 2023, a Argentina tinha inflação de 211% ao ano, déficit fiscal em todos os 113 dos últimos 123 anos, e uma taxa de pobreza que chegaria a 52,9% da população no primeiro semestre de 2024. Javier Milei assumiu a presidência com uma motosierra como símbolo de campanha e uma promessa que parecia impossível: desmontar em meses o que o Estado argentino construiu em décadas.
Dois anos e meio depois, os números são difíceis de ignorar.
A inflação mensal caiu de 25% em dezembro de 2023 para 2% em meados de 2026. A Argentina registrou seu primeiro superávit fiscal em 14 anos. O PIB cresceu 5,8% no primeiro trimestre de 2025. A pobreza caiu de 52,9% para 31,6%. O risco-país atingiu o nível mais baixo em cinco anos. O Banco Mundial aprovou US$ 12 bilhões em apoio ao país em abril de 2025 — e US$ 4 bilhões adicionais em setembro. Em outubro de 2025, o partido de Milei venceu as eleições parlamentares com mais de 40% dos votos, tornando-se a maior bancada na Câmara.
E enquanto isso acontecia, o Brasil aprovava o split payment, aumentava a carga tributária sobre dividendos e seguia com Selic em 14,25%.
Resposta rápida: Milei implementou o maior ajuste fiscal da história moderna argentina — corte de 35% nos gastos públicos em seis meses, equivalente a 6% do PIB. Eliminou ou modificou mais de 1.300 normas regulatórias, fechou mais de 200 entidades estatais e demitiu 53 mil funcionários públicos. Em 2026, avança com reforma tributária para simplificar o sistema e reduzir a carga, reforma trabalhista aprovada em fevereiro e corte de impostos sobre exportações agrícolas. O contraste com o Brasil é factual e mensurável: enquanto a Argentina reduz impostos e burocracia, o Brasil adiciona novos mecanismos de arrecadação e eleva a complexidade tributária. Para empresas que operam na América do Sul, esse diferencial de ambiente regulatório é cada vez mais relevante na decisão de onde investir e contratar.
O que Milei fez — e o que os números mostram
Para entender o experimento argentino, é preciso primeiro entender a escala do que foi feito — porque "cortar gastos" é um eufemismo para o que aconteceu.
No primeiro semestre de 2024, Milei reduziu os gastos públicos em 35%, equivalente a quase 6% do PIB — uma medida nunca vista na história moderna da Argentina. Ministérios foram cortados pela metade. Mais de 200 entidades estatais foram fechadas, incluindo secretarias e organismos considerados redundantes. Aproximadamente 53 mil postos de trabalho no setor público foram eliminados — mais de 10% da administração nacional, com os cargos superiores reduzindo-se em 36%.
Na frente regulatória, desde que o governo tomou posse até setembro de 2025, foram contabilizadas 437 normas de desregulamentação, enquanto 1.306 normas foram modificadas ou eliminadas. Quase 10 mil artigos legislativos foram alvo de modificação ou revogação. O ritmo: quase três regulações eliminadas ou modificadas por dia.
Um exemplo concreto do impacto: sete meses após Milei revogar o controle de aluguéis em Buenos Aires, a oferta de imóveis para locação na cidade surpreiu 212% e os preços reais caíram 27%. Quando o Estado para de interferir nos preços, os mercados respondem.
Os resultados macroeconômicos:
Inflação: de 25% ao mês em dezembro de 2023 para 2% ao mês em meados de 2026. Anualizada, de 289,4% no pico para projeção de 14% ao final de 2026;
Fiscal: treze superávits fiscais nominais mensais em quatorze meses de mandato — o primeiro superávit financeiro em 14 anos ao fechar 2024;
Dívida pública: de 155,7% do PIB em 2023 para 78,2% no terceiro trimestre de 2025;
Crescimento: quinto trimestre de 2024 com crescimento de 5,5% em relação ao mesmo período de 2023; primeiro trimestre de 2025 com expansão anualizada de 5,8%;
Pobreza: de 52,9% no primeiro semestre de 2024 para 31,6% no início de 2025;
Reservas internacionais: cerca de US$ 36,8 bilhões em abril de 2025, reconstruídas após anos de depleção.
A agenda tributária: o que foi feito e o que vem
A reforma tributária argentina sob Milei acontece em camadas — e está longe de concluída, mas a direção é inequívoca: menos impostos, menos complexidade, mais previsibilidade para o setor privado.
O que já foi implementado:
Imposto sobre patrimônio (wealth tax): a alíquota máxima foi reduzida de 1,75% para 1,50% em 2023, com trajetória de queda para 0,25% até 2027. O mínimo não tributável foi elevado substancialmente;
Impostos sobre exportações agrícolas (retenciones): a soja caiu de 26% para 24% em dezembro de 2025. A partir de junho de 2026, o trigo e a cevada caem de 7,5% para 5,5% — com trajetória de queda contínua para a soja a partir de janeiro de 2027. Para o setor industrial, do período de julho de 2026 a junho de 2027, o setor automotivo, petroquímica e máquinas pagarão zero em impostos de exportação — uma janela de 12 meses projetada para coincidir com o ciclo legislativo;
RIGI — Regime de Incentivo a Grandes Investimentos: regime criado para atrair investimento estrangeiro de grande escala, oferecendo estabilidade legal, incentivos fiscais e isenções alfandegárias para projetos em energia, mineração, tecnologia, aço e petróleo. Desde o lançamento, bilhões em projetos foram aprovados — chegando a aproximadamente US$ 25 bilhões em comprometimentos.
O que vem em 2026:
Milei anunciou 90 iniciativas legislativas para 2026, incluindo reforma tributária para reduzir a carga sobre empresas e cidadãos, mais desregulação e liberalização de mercado, e reforma educacional;
Reforma trabalhista: aprovada pelo Senado em fevereiro de 2026 por 42 votos a 28, flexibilizando horas de trabalho, férias e o sistema de indenizações para reduzir custos para empresas — o objetivo declarado é atrair os 42% de trabalhadores informais para o mercado formal;
Privatizações: a Lei de Bases abriu caminho para privatizar ou conceder empresas como Intercargo, AySA e Corredores Viales.
O paralelo com o Paraguai — e o que a Argentina pode replicar
O Paraguai já demonstrou há anos o que acontece quando um país vizinho ao Brasil adota tributação radicalmente mais baixa e ambiente regulatório mais simples. O imposto de renda pessoa jurídica no Paraguai é de 10% — contra 34% no Brasil (IRPJ + CSLL). O IVA paraguaio é de 10% — contra alíquota efetiva de IBS+CBS que, após a Reforma Tributária brasileira, pode chegar a 28%. O resultado é visível: empresas brasileiras de todos os portes cruzaram a fronteira, atraídas não apenas pelo custo tributário mas pela previsibilidade e pela menor burocracia.
A Argentina tem escala muito maior do que o Paraguai — e um mercado interno de 46 milhões de pessoas. Se Milei conseguir completar sua agenda tributária, o país passa a oferecer uma combinação que o Paraguai não tem: baixa tributação, mercado consumidor expressivo, mão de obra qualificada (a Argentina tem uma das maiores taxas de universitários da América Latina) e acesso privilegiado ao Mercosul e, potencialmente, ao acordo Mercosul-UE ratificado em 2025.
Para empresas que hoje consideram o Brasil como base regional na América do Sul, a equação está mudando. Não de forma imediata — a Argentina carrega décadas de instabilidade que não se apagam em dois anos — mas de forma mensurável e crescente.
O contraste com o Brasil em dados, sem retórica
Comparar Brasil e Argentina não precisa de adjetivos. Os dados falam por si.
Enquanto a Argentina reduz o imposto sobre patrimônio de 1,75% para uma trajetória de 0,25% até 2027, o Brasil discute e aprova aumentos no imposto sobre dividendos. Enquanto a Argentina elimina mais de 1.300 normas regulatórias e fecha 200 entidades estatais, o Brasil implementa o split payment — um mecanismo que centraliza ainda mais o controle fiscal sobre cada transação privada do país. Enquanto a Argentina registra seu primeiro superávit em 14 anos cortando gastos, o Brasil projeta dívida pública caminhando para 95% do PIB sem perspectiva de ajuste fiscal estrutural.
O índice de liberdade econômica da Heritage Foundation de 2026 coloca o Brasil na 137ª posição. A Argentina, apesar de décadas de intervencionismo, já avançou significativamente no ranking após as reformas de Milei. O Paraguai ocupa a 82ª posição. A mensagem para empresas que avaliam onde instalar operações, contratar talento e planejar o crescimento regional é clara — e está se tornando mais clara a cada trimestre.
Isso não é argumento ideológico. É cálculo empresarial: custo tributário, previsibilidade regulatória, custo de compliance e velocidade de aprovação de projetos são variáveis mensuráveis que entram nos modelos de decisão de investimento de qualquer empresa minimamente sofisticada.
Os riscos reais da Argentina — que também precisam ser nomeados
Uma análise honesta do experimento argentino não pode ignorar os riscos reais que ainda pesam sobre o país. Otimismo seletivo é tão enganoso quanto pessimismo ideológico.
Fragilidade política: Milei parece relativamente bem-posicionado para vencer a reeleição em 2027, mas o susto das eleições locais de 2025 na província de Buenos Aires, nas quais seu partido sofreu derrota contundente, lembra que sua reeleição não pode ser dada como certa. Uma vitória do peronismo em 2027 poderia reverter reformas rapidamente — a Argentina tem histórico de ciclos de liberalização seguidos de retrocesso;
Informalidade crescente: o aumento do desemprego formal traduziu-se num crescimento expressivo do trabalho informal — uma contradição que o governo precisa resolver para que a recuperação seja sustentável e não apenas estatística;
Índice de corrupção: no Índice de Percepção de Corrupção da Transparência Internacional de 2025, a Argentina caiu da 99ª para a 104ª posição — parcialmente por escândalos envolvendo aliados de Milei, incluindo o caso da criptomoeda $LIBRA;
Dependência do FMI: o programa de Milei foi construído com suporte do FMI e do Banco Mundial. Qualquer deterioração nos indicadores fiscais pode tensionar esses acordos — e a Argentina tem histórico de crises cambiais quando o apoio externo vacila;
Persistência da pobreza: mesmo com a queda de 52,9% para 31,6%, quase um terço da população argentina ainda vive abaixo da linha de pobreza. A recuperação macroeconômica não se traduziu igualmente para todos os estratos sociais.
O que isso significa para o investidor e para quem pensa em diversificar operações na América do Sul
Para o investidor brasileiro, a transformação argentina cria tanto oportunidades quanto referências úteis.
Do ponto de vista de investimento direto, a Argentina de Milei está se tornando gradualmente mais acessível — com o RIGI abrindo portas para projetos em energia e tecnologia, o câmbio mais previsível após o levantamento parcial do cepo e reservas em reconstrução. O risco político permanece real, mas o risk premium está diminuindo.
Do ponto de vista de referência para o debate brasileiro, o experimento argentino demonstra algo que estava fora do alcance de qualquer argumentação teórica: que um Estado pode ser dramaticamente reduzido, que impostos podem ser cortados sem colapso da receita (quando combinados com crescimento econômico), e que a formalidade e o planejamento de longo prazo retornam quando há previsibilidade fiscal.
Nenhum desses resultados é garantido para o longo prazo — a Argentina já decepcionou antes. Mas os dados de 2024-2026 não podem ser ignorados por qualquer análise séria do que é possível quando um país decide, de forma deliberada, reduzir o peso do Estado sobre sua economia.
E enquanto o Brasil segue na direção oposta, a janela de tempo para que empresas e investidores ajam antes que o diferencial se torne ainda mais pronunciado está se estreitando.
Checklist: como avaliar o ambiente de negócios Argentina vs. Brasil
Você já comparou a carga tributária efetiva para sua atividade nos dois países — incluindo imposto de renda corporativo, encargos trabalhistas e tributação sobre lucros distribuídos?
Sua empresa tem operações ou planos de expansão na América do Sul que poderiam se beneficiar de uma base mais competitiva tributariamente?
Você está monitorando o andamento das reformas de Milei em 2026-2027 — especialmente a reforma tributária e as privatizações — como variáveis para decisões de médio prazo?
Considera o risco político argentino (possível retorno do peronismo em 2027) como parte do cálculo, não apenas os resultados macroeconômicos atuais?
Conclusão: a América do Sul está mudando — e o Brasil ainda não percebeu
O experimento de Milei não é uma garantia de sucesso de longo prazo. A Argentina tem o histórico de recaída mais doloroso da América Latina — e qualquer análise que ignore isso não é análise, é torcida. Os riscos são reais, documentados e precisam estar no cálculo de qualquer investidor ou empresário que considera o país.
Mas os dois primeiros anos mostraram algo que importa: que as reformas liberais funcionam no curto prazo quando implementadas com consistência. Inflação cai quando o Estado para de imprimir dinheiro para cobrir déficits. Investimento volta quando há previsibilidade fiscal. Mercados respondem quando regulação é removida.
O Paraguai demonstrou isso em décadas de crescimento silencioso. A Argentina está demonstrando em velocidade acelerada. E o Brasil, que poderia aprender com ambos, segue adicionando mecanismos de controle tributário, complexidade regulatória e carga sobre o setor produtivo.
Para o investidor que pensa no patrimônio de longo prazo: a diversificação geográfica não é apenas uma estratégia financeira — é uma proteção contra a concentração num único ambiente regulatório que, historicamente, tem se movido na direção errada.
Use o Mapa do Investidor Internacional para entender como diversificar patrimônio além das fronteiras do Brasil. Se preferir conversar com nosso time, clique no botão vermelho.
As informações deste artigo têm caráter educativo e refletem dados públicos disponíveis em julho de 2026. Dados econômicos da Argentina estão sujeitos a revisão. Nada neste conteúdo constitui recomendação individual de investimento. Investimentos internacionais envolvem riscos cambiais, políticos e regulatórios específicos de cada país.








