Ativos e estratégias para tempos de crise

Ativos e estratégias para tempos de crise

Publicado em 06 de outubro de 2025Atualizado em 11 de junho de 2026

Os momentos de dificuldade são carregados de incertezas. Por haver menos espaço para erros, as decisões são mais difíceis, exigem mais estudo, critérios rígidos e cuidado. Por isso precisamos ter uma carteira com ativos de segurança, que tem boa performance em momentos de crise e que nos protegem de maiores volatilidades. Analisamos, no artigo, esses ativos e como usa-los. Também citamos, brevemente, as oportunidades que as crises escondem e que eventualmente (dependendo do perfil de investidor), podem ser aproveitadas.

Os ativos de segurança são os mais buscados em cenários conturbados, mantendo valor enquanto ações despencam e moedas fracas se desvalorizam.

O mais tradicional e sempre entre os mais utilizados por investidores é o Ouro. Em 2025, segue uma longa trajetória de alta, puxado por esse cenário de instabilidade e pelo investimento da China na commodity, que procura reduzir suas reservas em Dólares.

A cotação do Ouro, que há dois anos estava próxima de US$ 2000, agora está no patamar de US$ 3800 a onça. Na mesma esteira de valorização vem a Prata, menos procurada como ativo de reserva, mas que subiu de aproximadamente US$ 26.000 para cerca de US$ 46.000 a tonelada. Sua demanda industrial teve um grande crescimento com a maior utilização de componentes eletrônicos em itens do dia-a-dia, assim como a Platina.

Treasuries, Bonds e Moedas Internacionais

Na renda fixa, os Treasuries dos EUA, que ainda se encontram em níveis altos graças à inflação americana e ao nível de endividamento do país, continuam entre os ativos mais confiáveis do mundo. Para investidores brasileiros, ainda oferecem taxas interessantes por estarem acima do nível que, combinado à variação cambial do Real, historicamente supera a SELIC. Sua trajetória de queda abre a possibilidade da marcação a mercado, o que aumenta os ganhos. Os Bonds, títulos corporativos, acompanham os níveis da Fed Fund Rate, sendo ligeiramente superiores.

Outras moedas fortes, como a Libra Esterlina, o Franco Suíço e o Euro, que também ganham força em crises, podem ser boas alternativas frente ao constante risco de desvalorização do Real.

Como acessar os ativos e encaixá-los nas carteiras

Ouro

O ativo propriamente dito por ser comprado via COMEX, bolsa de commodities em Nova York. Não é necessária a movimentação física do ativo: a negociação se dá via contrato e a custódia acontece em instituição idônea, credenciada pela COMEX e regulada pela SEC. O processo é seguro e utilizado por investidores de todo o mundo, inclusive corporativos. No entanto envolve custos de custódia e exige quantidade mínima de compra. Por meio de ETFs a compra é mais simples e acessível e alternativas como o GLD têm alta liquidez.

Investidores de perfil conservador optam pelo Ouro por sua estabilidade, os  moderados pelo upside, e os sofisticados pela possibilidade de alavancagem, via mercado futuro na CME.

Prata

Negociada na COMEX, com o mesmo processo descrito acima, ou via ETFs como o SLV. É perfeita para moderados, que aceitam swings de 10-15%, e sofisticados, que combinam com derivativos. Os conservadores alocam menos (5% a 10%) e em geral em investimentos de longo prazo.

  • Renda Fixa

Treasuries quanto os Bonds permanecem com yields acima de 4,0 %, superando os 3% que historicamente batem a SELIC combinada ao fator cambial. Assim, a parte do capital investida em Treasuries ou Bonds conta com uma taxa atrativa, em moeda segura e ainda com a possibilidade de uso de marcação a mercado em uma eventual queda de juros. Além da compra direta de Treasuries ou Bonds, uma alternativa popular é o ETF TLT. Conservadores têm uma maior alocação; moderados usam como base; sofisticados combinam com opções.

Moedas Fortes

Também podem sofrer com crises, mas são muito mais resilientes do que o Real e, no longo prazo, sempre estarão valorizadas. Além da conversão cambial e manutenção em uma instituição internacional, elas podem ser encontradas em diversos ETFs, mono ou multiativos. Devem ser usadas dentro de limites em uma carteira balanceada: como hedge para conservadores e moderados; sofisticados exploram pares como USD/GBP (Libra).

A Construção de uma Estratégia Sólida ao Seu Perfil

Uma boa carteira deve ter diversos ativos em equilíbrio, de acordo com o perfil de investidor e seus limites.

Exemplos de balanceamento

Conservador: Segurança em Primeiro Lugar

  • Alocação: 60% Treasuries, 30% Ouro, 10% moedas.

  • Outros ativos como Prata ou Bonds podem ser aceitos, mas ao máximo de 10%. A opção por ETFs é mais acessível, tem o mesmo nível de segurança e tem alta liquidez.

  • Protegem contra desvalorização do real (27% em 2024).

Moderado: Equilíbrio com Ousadia

  • Alocação: 40% Treasuries, 25% Ouro, 20% Prata, 15% em ações de empresas de mercados resilientes e menos voláteis.

  • Aceitável no máximo 20% em ações, pela correlação negativa com o Ouro, reduzindo o risco combinado.

  • Combinam proteção com possibilidade de upside.

Sofisticado: Caçando Oportunidades

  • Alocação: 30% Treasuries, 20% Ouro, 20% Prata, 20% ações, 10% derivativos (ex. compra de opções ou futuros de outras commodities).

  • Até 30% em ativos de risco; alavancagem máxima de 2x. Hedge com moedas.

  • Exploram volatilidade com uma base segura.

O Potencial que as Dificuldades Escondem

Crises podem assustar e certamente demandam ativos de segurança. Mas também oferecem aos investidores, especialmente os mais experientes, oportunidades interessantes.

As crises funcionam como promoções de venda, quando encontramos bons ativos a preços descontados. Uma máxima do mundo dos investimentos ensina que devemos “comprar ao som dos canhões e vender ao som dos violinos.” É preciso reforçar, no entanto, que antes de entrar em qualquer dessas oportunidades o investidor precisa estudar circunstâncias, mercados, empresas e ativos, bem como respeitar limites de investimento adequados à sua necessidade de liquidez e possibilidade de perdas.

Algumas commodities como petróleo e minério de ferro e segmentos como o de semicondutores ser considerados em estratégias com espaço para algum risco em troca de maior upside. Ações de boas empresas em mercados perenes também podem ser apostas vencedoras, sempre a partir de análises bem feitas e do ponto de entrada em cada ativo.

Conclusão: Um Ajuste de Expectativas

Crises não são o fim do mundo, e podem ser portas para oportunidades. Apesar dos riscos, quedas mais profundas em ações emergentes ou suas moedas geram ativos subvalorizados, e, portanto, excelentes pontos de entrada, ou investimento em bons ativos. Obviamente, saber como aproveitá-los, como selecionar os ativos, estabelecer limites, manter-se com liquidez e reserva de emergência, entre outrros fatores, é essencial. Uma boa análise e estratégia consistente demandam muito estudo e critérios rígidos e sempre que possível devem ter o apoio de profissionais qualificados.

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João Augusto C. Fernandes

Escrito por

João Augusto C. Fernandes

Sócio da Wiser Investimentos | BTG Pactual e fundador da plataforma InvestGlobal.

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