Em 5 de junho de 2026, o Departamento de Estado americano publicou no Federal Register a designação oficial das duas mais conhecidas organizações criminosas do Brasil — hoje multinacionais — como Organizações Terroristas Estrangeiras (FTO, na sigla em inglês). As duas facções passaram a integrar uma lista de mais de 90 organizações, ao lado de Hamas, Hezbollah, Al-Qaeda, Estado Islâmico, Sinaloa e Tren de Aragua.
A reação do governo Lula foi imediata. Em discurso em Laranjeiras (SE), o presidente disse estar "muito triste" com a decisão do "tal de Marco Rubio", chamou de "traidor" o senador e candidato Flávio Bolsonaro por ter levado dossiê sobre as facções a Washington, afirmou que o Brasil "não é uma republiqueta" e declarou que não aceita "ser tratado como muleque." Dias antes, o governo havia formalmente se recusado a adotar essa classificação, após pedido apresentado em reunião bilateral em Brasília.
Mas a designação das facções como terroristas foi apenas o episódio mais recente de uma deterioração muito mais ampla e estruturada da relação Brasil-EUA — que ganhou um capítulo novo e grave em julho de 2026, com a imposição de tarifas de 25% sobre a maioria das importações brasileiras nos EUA com base na Seção 301 do Trade Act de 1974.
Há muito a discutir sobre os métodos e motivações americanas nessas decisões. Mas antes de entrar nesse debate legítimo, é preciso enfrentar a pergunta que o governo brasileiro consistentemente evita responder: quantas dessas queixas têm base factual? E se têm, como chegamos à situação de ter os EUA nos punindo por práticas que nós mesmos teríamos obrigação de corrigir?
Contexto: Em julho de 2026, os EUA concluíram uma investigação de 12 meses com base na Seção 301 do Trade Act de 1974 e impuseram tarifas de 25% sobre a maioria das importações brasileiras — em vigor desde 22 de julho. Os seis motivos documentados pela USTR incluem tarifas preferenciais discriminatórias para México e Índia em detrimento dos EUA, proteção insuficiente de propriedade intelectual, barreiras ao comércio digital, subsídios desleais ao etanol, corrupção sistêmica e desmatamento ilegal. Em junho, as facções criminosas mais poderosas do Brasil foram designadas como organizações terroristas. Em ambos os casos, o governo brasileiro recusou negociar ou adequar suas práticas — uma escolha que tem custos concretos para exportadores, investidores e trabalhadores brasileiros.
A Seção 301 e as seis acusações que o Brasil prefere ignorar
A Seção 301 do Trade Act de 1974 é o instrumento legal americano que autoriza o USTR (Representante de Comércio dos EUA) a investigar e retaliar práticas comerciais de outros países consideradas injustas, irracionais ou discriminatórias. Não é uma ferramenta nova — foi usada extensivamente contra o Japão nos anos 1980 e contra a China nos anos 2010. O que é novo é seu uso formal contra o Brasil, depois de mais de um ano de investigação e múltiplas rodadas de negociação fracassadas.
A investigação foi iniciada em julho de 2025 a pedido do presidente Trump, abrangendo seis áreas: comércio digital e serviços de pagamento eletrônico; tarifas preferenciais discriminatórias; combate à corrupção; proteção de propriedade intelectual; acesso ao mercado de etanol; e desmatamento ilegal. Em junho de 2026, a USTR concluiu que as práticas brasileiras eram "irracionais e restritivas ao comércio americano". Em julho, impôs as tarifas. Apesar de múltiplas rodadas de negociação e propostas americanas desde abril de 2025, o Brasil continuou suas práticas e não concordou em resolver as questões.
Vale examinar cada um dos seis motivos — porque todos têm base factual documentada, e nenhum deles depende do processo Bolsonaro ou das organizações terroristas para ser válido:
Tarifas preferenciais discriminatórias: o Brasil oferece tratamento tarifário até 100% mais baixo para México e Índia em mais de mil linhas tarifárias — aplicando às exportações americanas as tarifas mais altas (MFN). Isso é verificável na tabela tarifária brasileira e difícil de justificar em termos comerciais neutros;
Comércio digital e pagamentos eletrônicos: o Brasil liderou a oposição à extensão da moratória da OMC sobre tarifas alfandegárias em transmissões eletrônicas, contrariando a posição americana e da maioria das economias desenvolvidas na 14ª Conferência Ministerial da OMC em março de 2026. A postura brasileira dificulta o acesso de empresas americanas de tecnologia e pagamentos ao mercado brasileiro;
Propriedade intelectual: desde 2007, o Brasil figura na lista de vigilância do USTR por proteção insuficiente de patentes, especialmente em farmacêuticos. O licenciamento compulsório frequente de medicamentos patenteados e a demora no registro de patentes criam prejuízo documentado para empresas americanas;
Etanol: em 2017, o Brasil descontinuou abruptamente o tratamento tarifário equilibrado para etanol americano. Hoje aplica tarifa de 18% ao etanol dos EUA enquanto recebe tratamento mais favorável em mercados reciprocamente relevantes;
Corrupção: em 2025, o Brasil obteve nota 35 em 100 no Índice de Percepção de Corrupção da Transparência Internacional — um dos piores entre os países do G20. A USTR aponta que, ao invés de avançar no combate à corrupção, o Brasil "se afastou ainda mais das normas globais", criando desvantagem para empresas americanas que seguem regras anticorrupção;
Desmatamento ilegal: o Brasil tem marco legal para combater o desmatamento ilegal mas historicamente falha na aplicação. O desmatamento persistente é documentado por imagens de satélite e relatórios independentes — e representa, para os EUA, uma vantagem competitiva injusta para produtores rurais brasileiros que evitam custos de conformidade ambiental.
Nenhum desses seis pontos é invenção americana. São questões que economistas, diplomatas e o próprio setor produtivo brasileiro debatem há anos. A diferença é que agora têm um preço de 25% sobre as exportações.
A recusa em negociar: estratégia ou eleitoralismo?
O dado mais revelador do episódio não é a tarifa em si — é o que aconteceu antes dela. Os EUA buscaram negociação desde abril de 2025. Realizaram múltiplas rodadas de consultas com autoridades brasileiras. Apresentaram propostas formais. Durante mais de um ano, o governo brasileiro teve a oportunidade de negociar soluções para questões que, em vários casos, já deveria ter resolvido por motivos próprios.
Não negociou.
A decisão de não ceder em nenhuma das seis frentes — especialmente nas mais facilmente negociáveis, como o etanol e as tarifas preferenciais — levanta uma questão que o próprio setor exportador brasileiro está fazendo: a recusa a negociar serve ao interesse nacional? Ou serve ao interesse eleitoral de um governo que prefere o conflito com Trump como narrativa política para mobilizar sua base em outubro de 2026?
Não se trata de especulação — é uma leitura que circula abertamente entre diplomatas, economistas e representantes do agronegócio brasileiro. Um acordo comercial com os EUA, mesmo que parcial, tiraria do governo o argumento do "imperialismo americano" como inimigo a ser combatido. A ausência de acordo mantém o conflito vivo — e conflito com Trump tem valor eleitoral para um candidato à esquerda no Brasil de 2026.
O custo dessa estratégia — se é que se trata de estratégia — é pago pelo exportador de soja que perde competitividade, pela indústria que vende manufaturados ao mercado americano e pelo trabalhador cujo emprego depende de acesso àquele mercado. São eles que bancam as tarifas, não o governo que as aceitou.
A designação das facções criminosas: o mesmo padrão
O episódio das organizações terroristas segue a mesma lógica. O comunicado oficial do Departamento de Estado afirma que ambas estão entre as organizações criminosas mais violentas do Brasil, comandam milhares de membros, orquestraram ataques brutais contra policiais brasileiros, funcionários públicos e civis, e que sua influência e redes ilícitas se estendem muito além das fronteiras do Brasil, alcançando o território americano.
O governo americano identificou atuação das facções em 12 estados dos EUA. As conexões com o Tren de Aragua venezuelano e com cartéis mexicanos como o Sinaloa estão documentadas. Em 2025, as duas maiores facções do país firmaram aliança inédita — informação confirmada pelo Ministério Público de São Paulo. Os números da violência nacional são dignos de estado de guerra: mais de 40 mil homicídios por ano, com regiões do Norte e Nordeste superando índices de zonas em conflito armado reconhecido. As facções controlam territórios inteiros, impondo toque de recolher, cobrando impostos e executando quem as desafia.
O presidente Lula disse algo curioso ao reagir. Ao mesmo tempo em que chamava as organizações de terroristas "para as comunidades brasileiras", afirmou que "elas não são os terroristas que o Trump quer, como o Osama bin Laden." É uma distinção sem diferença prática para as 40 mil famílias que perdem alguém para a violência a cada ano. E revela a tensão central da posição do governo: reconhecer que são terroristas para os brasileiros, mas recusar que sejam classificadas como tal internacionalmente — porque essa classificação implica ferramentas de combate que o governo não quer ver aplicadas.
Há também a questão do padrão. O governo Lula recusou classificar o Hamas como organização terrorista após o ataque de 7 de outubro de 2023 — um massacre hediondo de cerca de 1.200 civis israelenses, com violência raramente vista na história. EUA, União Europeia e praticamente todas as democracias ocidentais mantêm essa classificação. O Brasil, não. A mesma lógica ideológica que impede o governo de chamar o Hamas de terroristas é estendida às facções nacionais — e essa consistência tem custos geopolíticos reais.
O argumento oficial é soberania. Mas quando um Estado não consegue ou não quer enfrentar o problema dentro de suas fronteiras, o argumento da soberania para impedir que outros o façam soa menos como defesa de princípios e mais como escudo para a inação.
A diplomacia como instrumento ideológico
Diplomacia séria não é sobre gostar ou não gostar do interlocutor. É sobre identificar interesses convergentes e construir pontes que os realizem. Os EUA são o maior parceiro comercial individual do Brasil, o maior mercado para exportações brasileiras de manufaturados, a principal fonte de investimento direto estrangeiro no país e a âncora do sistema financeiro global do qual o Brasil depende para se financiar.
Gerir essa relação a partir de uma postura ideológica — em que Trump é o inimigo de classe, Rubio é o imperialista e qualquer pedido americano é por definição interferência inadmissível — não é soberania. É imprudência diplomática com custo direto para os brasileiros que exportam, para as empresas que precisam de crédito internacional e para os trabalhadores cujos empregos dependem de acesso ao mercado americano.
O padrão se repete: não negociar as tarifas da Seção 301 quando havia mesa posta para negociação; recusar a classificação das facções quando havia pedido formal; não classificar o Hamas quando havia pressão legítima dos aliados. Em todos os casos, a postura é a mesma — e em todos os casos, o custo é pago por brasileiros que não participaram da decisão ideológica que o gerou.
As consequências concretas para o investidor
A classificação de FTO não é simbólica. Qualquer pessoa física ou jurídica que forneça suporte material a uma organização terrorista designada pode ser processada nos EUA. Bancos brasileiros com operações nos EUA precisarão redobrar controles de compliance. O precedente mexicano é ilustrativo: após designações de cartéis em fevereiro de 2025, o OFAC e o FinCEN sancionaram três instituições financeiras mexicanas — com rebaixamento pela Fitch, corte de transações pela Visa e intervenção regulatória.
As tarifas de 25% da Seção 301 — vigentes desde 22 de julho de 2026, em adição a outras tarifas já existentes — têm impacto imediato e mensurável. Em 2024, os EUA importaram US$ 42,3 bilhões em produtos brasileiros. A tarifa adicional de 25% representa custo que ou é absorvido pelo exportador brasileiro (comprimindo margem) ou é repassado ao importador americano (reduzindo competitividade). Em ambos os casos, as exportações brasileiras perdem espaço.
Para o investidor de longo prazo, o quadro mais amplo importa:
Risco comercial crescente: uma relação bilateral que continua se deteriorando aumenta a probabilidade de novas restrições. A USTR indicou que monitorará as questões identificadas e poderá revisar as medidas — para cima, se as práticas não mudarem;
Risco de investimento estrangeiro: empresas americanas avaliam o ambiente diplomático ao decidir onde investir. Um Brasil classificado como parceiro não confiável em comércio e segurança atrai menos capital americano — que é uma das maiores fontes de IED no país;
Risco de sanções financeiras: a exposição de bancos e fintechs brasileiros às redes das facções criminosas — que se infiltram em bets, logística e fintechs — pode resultar em corte do sistema financeiro americano;
Incerteza eleitoral: um ciclo eleitoral em que o governo usa o conflito com os EUA como narrativa política, com questionamentos internacionais sobre condições democráticas, aumenta a percepção de risco político — precificada em câmbio, juros e spread soberano.
O cenário eleitoral e as condições democráticas
A deterioração da relação Brasil-EUA ocorre num ano eleitoral — e isso não é coincidência nem irrelevante. Membros do Congresso americano têm expressado preocupações formais sobre o estado da democracia e da liberdade de expressão no Brasil. Investigações do STF contra comunicadores, opositores políticos e figuras públicas — e a criminalização de manifestações de opinião que em qualquer outra democracia ocidental seriam protegidas — geram questionamentos que não se limitam à diferença ideológica entre Trump e Lula.
Democracia genuína exige condições que vão além do ato de votar: liberdade de expressão para todos os candidatos, acesso equânime ao debate público, garantias processuais independentes de orientação política, e um ambiente em que a oposição pode se organizar e disputar sem sofrer perseguição judicial. Essas são condições que o próprio governo Lula invocou quando se tornou alvo do governo Bolsonaro — mas que não parecem valer neste momento.
O mesmo princípio democrático que o atual mandatário defende deve ser aplicado ao processo eleitoral que se aproxima: com liberdade de expressão real, condições justas e equânimes de concorrência, e garantias que nenhum adversário seja processado por posições políticas. Quando essas condições não existem, a legitimidade do resultado — qualquer que seja — fica fragilizada não apenas internacionalmente, mas internamente.
Conclusão: soberania exige Estado, não retórica
O Brasil tem o direito de discordar dos métodos americanos. Tem o direito de questionar motivações políticas por trás de decisões do governo Trump. Tem o direito de defender sua posição com firmeza.
O que o Brasil não tem — ou não deveria ter — é o direito de recusar negociações comerciais que beneficiariam o país, esconder atrás da retórica de soberania a incapacidade de enfrentar organizações criminosas que controlam território nacional, e gerir a relação com o maior parceiro comercial como extensão de uma campanha eleitoral. O custo dessas escolhas é pago pelo exportador, pelo trabalhador e pelo investidor — não pelo governo que as tomou.
A diplomacia funciona quando é pragmática e orientada por interesses nacionais reais. O Brasil tem interesses concretos e legítimos na relação com os EUA. Defendê-los com competência e clareza — em vez de com discursos em palanques eleitorais — é o que qualquer governo responsável deveria fazer, independentemente de quem estiver no Palácio do Planalto.
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As informações deste artigo têm caráter educativo e refletem dados públicos disponíveis em julho de 2026. Nada neste conteúdo constitui recomendação individual de investimento ou assessoria jurídica.








