O mundo em turbulência - e os investimentos em meio a ela

O mundo em turbulência - e os investimentos em meio a ela

Publicado em 22 de setembro de 2025Atualizado em 11 de junho de 2026

O mundo todo está conturbado, evolvido em disputas por poder e influência em diferentes regiões, hoje interconectadas por uma geopolítica altamente complexa e com aspectos que nem sempre são compreendidos mesmo por analistas experientes. Em um cenário assim, é essencial traçar uma estratégia de defesa em investimentos, minimizando riscos. O artigo aborda resumidamente a situação atual.

Há anos convivemos com um volume de incertezas que muitos de nós provavelmente nunca haviam visto. Aos recorrentes problemas do Brasil com sua situação fiscal, política e econômica, somamos uma situação geopolítica altamente complexa e de difíciol solução, tantas são as partes envolvidas e seus interesses.

Conflitos armados, invasões, ataques endividamento, luta por poder, problemas sociais, desemprego e inflação estão entre os muitos elementos a serem equacionados na busca por um reequilíbrio que ainda está distante. A seguir os principais fatos que compõem o cenário atual.

Estados Unidos

As tarifas de Donald Trump, que no Brasil tiveram motivação política, são aplicadas ao resto do mundo por questões econômicas, em uma clara estratégia de enfraquecimento do Dólar, internacionalmente, e, como consequência, redução da dívida. E essa estratégia, de resultados ainda imprevisíveis, vem sendo aplicada em um cenário de dificuldades que vai além da alta dívida americana: o nível de empregos vem caindo, e há pouco descobriu-se que os índices foram ‘maqueados’ durante o governo de Joe Biden, tentando mostrar uma economia mais forte com finalidades eleitorais. A inflação ainda está alta mesmo com os juros na máxima por um longo período para os padrões americanos. O país passa por ajustes em diversas áreas, procurando desfazer-se do legado de domínio dos democratas mais radicalmente alinhados à esquerda.

Conflitos do tipo de guerra fria com a China, uma convivência altamente instável com a Rússia, e a formação de um novo bloco conhecido pelo acrônimo CRINK (China, Rússia, Índia/Irã e Coréia do Norte), ao qual o Brasil atualmente está alinhado, criam um cenário desafiador para Trump e os Estados Unidos, que ainda se vêm em meio aos efeitos nefastos de um tráfico de drogas que envolve a Venezuela e o ditador Maduro – um confronto que poderá ter sérias consequências inclusive em nossas fronteiras.

Europa

Na Europa, a situação é ainda pior: cisões entre parceiros da Zona do Euro começam a aparecer; as economias apresentam baixo crescimento ou estagnação; a entrada de refugiados de países em conflito, especialmente os islâmicos, chegou a níveis insustentáveis, e têm detonado protestos dos cidadãos locais em quase todos os países da Comunidade Européia.

A polarização política à qual nos acostumamos no Brasil passa a entrar na rotina dos europeus, cansados com as promessas não cumpridas pela esquerda, que há muito domina o continente, e a direita volta a ganhar espaço. A França aprofunda seus problemas fiscais, afetando o governo que já está com seu quinto primeiro-ministro em apenas 2 anos; novos protestos e uma greve que mobilizou pelo menos 500 mil trabalhadores fazem parte da turbulência da segunda maior economia da zona do Euro.  

A esse conjunto de dificuldades, soma-se a necessidade de se rearmar para um eventual conflito provocado pelo ditador da Rússia, que vem testando os limites de países com provocações a países como Polônia e Estônia. Em meio à possibilidade de conflitos, praticamente todos os países da OTAN viram-se obrigados a investir em defesa, algo agravado pela redução de investimentos por parte dos Estados Unidos. Tudo aponta, portanto, a um aumento de dívidas pelos governos europeus.

Oriente Médio

No Oriente Médio, a Faixa de Gaza segue impondo desafios aos israelenses e ao frágil equilíbrio da região. Mesmo com a eliminação de toda a cúpula da organização te77o7ista que dominou a área palestina até então, os conflitos se estendem e mantém as tensões em nível de alerta. A destruição das instalações nucleares do Irã parece ter tido efeitos apenas pontuais, enquanto os Houtis, no Yemen, seguem fazendo ataques aleatórios e ameaçando a paz na região.

China

Em evento recente de comemoração da vitória da China sobre o Japão na segunda guerra, a presença de Putin e Kim Jon Un lado a lado com Xi Jinping tornou-se emblemática, deixando claro ao mundo uma posição de confrontamento com os Estados Unidos. Ao mesmo tempo, no entanto, que o desfile militar procurou mostrar a união das três ditaduras e o poderio bélico da China, sabemos que a segunda maior economia do mundo também dá sinais de desgaste ou saturação de seu modelo, e que as coisas não vão bem do outro lado da muralha. Fábricas de automóveis elétricos altamente subsidiadas começam a ter problemas, a indústria imobiliária que já quebrou há tempos são apenas exemplos de que o planejamento central realizado pelo partido que comanda o país com mão de ferro é falho e não se sustenta.

Fora de suas fronteiras, a China segue com a expansão de sua influência por meio de acordos com os países de menor desenvolvimento na Ásia e África: em troca de investimentos em infraestrutura, entregam controle territorial ou de setores estratégicos aos interesses de Xi. A ampliação dessa influência leva, mais uma vez, preocupação a Taiwan e ao Japão, que reforçou seu acordo de cooperação de defesa com a Austrália.

Brasil

No Brasil, além do que já foi citado no início, temos a aproximação das eleições como principal fator de desestabilização. Mesmo com a situação fiscal ainda mais degradada, com o próprio governo assumindo que o orçamento público foi esgotado, o presidente busca aumentar as tensões com os Estados Unidos por acreditar que terá ganhos eleitorais com o confronto. E há tempos coloca-se totalmente empenhado em mais uma reeleição, com as armas de sempre: narrativas, promessas, divisão da população e compra de votos por meio do assistencialismo - que por sua vez aumentará o déficit fiscal e os impostos. O limite dessa situação pode estar nas eleições de 2026, seja pela alternância de poder, seja por uma aceleração da radicalização à esquerda implantada pelo governo atual.

Ao mesmo tempo em que se associa a algumas das piores ditaduras do mundo, afronta seu principal investidor e segundo maior parceiro comercial, Lula abandona de vez o pragmatismo que deve guiar as relações diplomáticas. Tem como parceiros a maioria dos ministros do STF, hoje ameaçados pela Lei Magnistky como consequência da perseguição a Bolsonaro e muitos de seus apoiadores.

E como se já não bastasse colocar o Brasil em um rumo de distanciamento das nações mais desenvolvidas para aliar-se ao eixo das ditaduras, Lula aumenta ainda mais as incertezas sobre nosso futuro com as provocações a Donald Trump, sempre que discursa a apoiadores ou em eventos oficiais. Insiste em aumentar o confronto à maior economia do mundo com ameaças de represálias e falas contra o Dólar, e segue declarando apoio a Maduro, cujo regime está próximo do fim pela pressão - e iminente ação - dos Estados Unidos.

Os investimentos

A recente alta do índice Ibovespa, não ocorreu por méritos próprios: nossos fundamentos, sob qualquer aspecto, continuam altamente frágeis e não-confiáveis, mas nos beneficiamos de toda a instabilidade mundial. A alta histórica da bolsa, que ocorre em termos nominais, deveria ocorrer em termos reais (quando é medida em Dólares), se o governo atuasse de forma responsável, pragmática, movido pelos interesses do país, apartidário e sem ideologia.

Apesar dos diversos fatores envolvendo diferentes regiões de forma complexa, trata-se apenas de um cenário com o qual precisamos lidar, assim como em qualquer outra época, para tomar decisões de menor risco em investimentos. Buscar informações confiáveis, estudar, analisar com frieza as diversas variáveis, fazem parte das atividades de investidores. E a minimização de riscos parte da diversificação de ativos e mercados, incluindo mercados internacionais.

Em tempos difíceis, devemos buscar segmentos e empresas perenes ou que, eventualmente possam se beneficiar em momentos adversos. Um reforço de posição em ativos de segurança como o Ouro e a atenção a mercados menos sensíveis às condições atuais também fazem parte de uma estratégia de proteção.

Conclusão

Há muitos outros fatores que colocam o mundo atualmente em alerta, e que podem aumentar ainda mais a instabilidade na qual vivemos.

Mas de qualquer forma, a decisão de uma estratégia vencedora passa pela análise do perfil de cada investidor, sua necessidade de liquidez, momento de vida e grau de aceitação de risco. E sempre que possível, com a ajuda de um profissional qualificado.

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João Augusto C. Fernandes

Escrito por

João Augusto C. Fernandes

Sócio da Wiser Investimentos | BTG Pactual e fundador da plataforma InvestGlobal.

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