Curva de juros americana em agosto de 2026 com yield do T-Bond de 30 anos em máxima de 19 anos, intervenção de Bessent dobrando recompras e dívida americana cruzando US$ 40 trilhões

Renda Fixa Internacional

Tesouro dos EUA dobra recompras após yield de 30 anos bater máxima em 19 anos, e a dívida cruzar US$ 40 trilhões

Publicado em 21 de agosto de 2026Atualizado em 21 de agosto de 202615 min de leitura

Em 18 de agosto de 2026, o T-Bond de 30 anos atingiu 5,34% — máxima em 19 anos. No mesmo dia, a dívida americana cruzou US$ 40 trilhões. Bessent dobrou as recompras de longo prazo de US$ 2bi para US$ 4bi. Os yields caíram na quarta. Rebotaram na quinta. A intervenção foi tática e brilhante. O problema é estratégico e não está resolvido: US$ 1,1 trilhão em juros anuais, deficit de US$ 432 bilhões em julho, US$ 9 trilhões para rolar em 2026. O mapa completo para o investidor.

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Na terça-feira, 18 de agosto de 2026, o yield do T-Bond americano de 30 anos atingiu 5,34% — a máxima em 19 anos, a mais alta desde 2007. No mesmo dia, a dívida pública americana cruzou formalmente a marca de US$ 40 trilhões pela primeira vez na história. Os dois eventos ocorreram simultaneamente — e não foi coincidência.

Na quarta-feira, o secretário do Tesouro Scott Bessent anunciou que o governo dobraria o tamanho das operações de recompra de títulos de longo prazo: de US$ 2 bilhões para pelo menos US$ 4 bilhões por operação, direcionadas aos segmentos de 10 a 20 anos e 20 a 30 anos da curva de juros — justamente os que estavam sob maior pressão. Os yields recuaram imediatamente: o T-Bond de 10 anos caiu 5,7 pontos-base para 4,647% e o de 30 anos caiu 9 pontos-base para 5,196%.

Na quinta-feira, os yields rebotaram.

Esse é o resumo do que aconteceu — e contém, em três parágrafos, tudo que o investidor precisa entender sobre o que o buyback representa: uma intervenção tática brilhante num problema estrutural que nenhuma recompra resolve.

O que aconteceu: O yield do T-Bond de 30 anos atingiu 5,34% em 18 de agosto de 2026 — máxima em 19 anos. A dívida americana cruzou US$ 40 trilhões no mesmo dia. Scott Bessent anunciou dobrar as recompras de longo prazo de US$ 2 bi para pelo menos US$ 4 bi por operação, entre setembro e novembro de 2026, no total de até US$ 83 bilhões no período. Os yields caíram na quarta e rebotaram na quinta. O problema de fundo: US$ 1,1 trilhão em juros anuais (segunda maior despesa federal, atrás apenas da Previdência), deficit de US$ 432 bilhões em julho (4º maior mensal da história), e US$ 9 trilhões em títulos de baixo juro que precisam ser rolados em 2026 nas taxas atuais. A intervenção de Bessent comprou tempo. Não comprou solução.

O que levou os yields a máximas de 19 anos

O yield do T-Bond de 30 anos não chegou a 5,34% por acaso ou por um único evento. É o resultado da convergência de pelo menos cinco forças que vinham se acumulando há meses — e que, em agosto de 2026, chegaram a um ponto de inflexão simultâneo.

1. O conflito EUA-Israel-Irã e o prêmio de risco geopolítico. A grande venda de títulos que empurrou o yield de 30 anos para a máxima de 19 anos ocorreu em meio a preocupações com uma escalada iminente na guerra EUA-Israel com o Irã. Conflito no Oriente Médio pressiona energia, alimenta inflação, e reverte expectativas de corte de juros. Quando o mercado precifica que o Fed precisará manter ou elevar juros por mais tempo por causa de um choque inflacionário geopolítico, os yields longos sobem.

2. A deterioração fiscal que já não pode ser ignorada. Os gastos com a guerra no Irã, os cortes de impostos do One Big Beautiful Bill Act e os juros crescentes pressionaram o orçamento federal ao ponto em que os custos de juros já ultrapassaram os gastos com Medicare e se tornaram a segunda maior linha do orçamento federal, atrás apenas da Previdência Social. O deficit de julho de 2026 foi de US$ 432 bilhões — o quarto maior mensal da história dos EUA. O deficit acumulado nos primeiros dez meses do ano fiscal de 2026 já superou o deficit total de todo o ano fiscal de 2025.

3. O rebaixamento da Moody's em 2025. Em 2025, a Moody's rebaixou a dívida americana, retirando dos EUA seu último rating perfeito de qualquer das três grandes agências. O sinal foi absorvido gradualmente pelo mercado — mas está presente no term premium que os investidores agora exigem para carregar títulos longos americanos. Quanto maior o risco percebido, maior o yield exigido.

4. O "buyers' strike" nos títulos longos. O segmento de 10 a 20 anos e 20 a 30 anos da curva de juros americana estava sofrendo uma greve de compradores desde o final de junho — investidores simplesmente deixando de absorver os volumes que o governo precisa emitir para financiar o deficit. Quando a demanda cai e a oferta permanece (ou cresce), o preço cai e o yield sobe.

5. O risco de que o Japão venda Treasuries. Esta foi a segunda intervenção do mês de Bessent: ele também participou da intervenção cambial japonesa de 1º de agosto para reverter a queda do iene a mínimas de 40 anos frente ao dólar. O Japão é um dos maiores detentores estrangeiros de Treasuries. Se o iene está muito fraco, há incentivo para o Banco do Japão vender Treasuries e usar os dólares para comprar ienes. Cada venda japonesa de Treasuries empurra os yields americanos para cima — criando um ciclo de retroalimentação que Bessent estava tentando prevenir desde o início do mês.

O que é a recompra de Treasuries — e como ela funciona

A maioria dos investidores está familiarizada com o conceito de Quantitative Easing (QE) — quando o Fed compra títulos do mercado para injetar liquidez e reduzir yields. O buyback do Tesouro anunciado por Bessent é tecnicamente diferente, mas tem efeitos similares no curto prazo.

O programa de recompra (buyback) do Tesouro funciona assim: o governo americano compra de volta seus próprios títulos antes do vencimento, pagando o preço de mercado. Isso injeta liquidez no mercado — os vendedores recebem dinheiro em vez de títulos —, aumenta a demanda por esses títulos (que sobe o preço e derruba o yield) e, no caso dos títulos longos, reduz temporariamente a oferta disponível no mercado.

Sob o programa acelerado, o Tesouro irá comprar os segmentos de 10 a 20 anos e 20 a 30 anos do mercado, "pelo menos dobrando" o tamanho máximo das operações de recompra, de US$ 2 bilhões para "pelo menos" US$ 4 bilhões, conforme anúncio do departamento. Três recompras de títulos de 20 a 30 anos e quatro de 10 a 20 anos estão programadas no período de setembro a novembro, adicionando pelo menos US$ 14 bilhões de suporte de liquidez e elevando as recompras máximas para US$ 83 bilhões.

O efeito imediato funcionou — yields caíram. Mas o efeito técnico levantou uma questão que os analistas do Evercore ISI colocaram diretamente: "Bessent está novamente demonstrando sua habilidade tática como um secretário do Tesouro ativista — atacando quem está vendido em bonds com um anúncio surpresa de programa de recompra aumentado num dia de agosto com liquidez fina e uma pausa nas apostas unidirecionais de yields mais altos." Mas questionaram se o movimento teria impacto duradouro dado que o Tesouro ainda precisa financiar uma "maré montante" de dívida que vence e de déficits.

O analista Thomas Simons, economista-chefe americano do Jefferies, foi mais direto: o anúncio surpresa contraria a tradição do Tesouro de comunicações consistentes sobre emissão de dívida "regular e previsível" — o que levanta questões sobre o precedente que estabelece para a próxima vez que o mercado pressionar os yields.

O problema que o buyback não resolve: os US$ 40 trilhões e o que vem depois

Aqui está a dimensão do desafio que o buyback de Bessent está comprando tempo para enfrentar.

A dívida detida pelo público, medida mais estreita que exclui certas participações intragovernamentais, está em aproximadamente US$ 32,3 trilhões — equivalente a cerca de 101% do PIB americano. Esse nível coloca o ônus da dívida americana próximo de níveis não vistos desde a Segunda Guerra Mundial.

Os números de custo são os que mais impressionam:

  • Os custos de juros agora consomem aproximadamente US$ 1,1 trilhão ao ano — ultrapassando os gastos com Medicare e tornando-se a segunda maior linha do orçamento federal, atrás apenas da Previdência Social. Em 2025, pela primeira vez, o serviço da dívida superou os gastos com a defesa nacional.

  • O CBO projeta que os gastos líquidos com juros aumentarão de aproximadamente 3,3% do PIB em 2026 para 4,6% em 2036. Em 2056, os custos anuais de juros são projetados em 6,9% do PIB.

  • Em 2026, o governo americano precisa emitir mais de US$ 2 trilhões em nova dívida líquida para financiar o deficit. E há estimativas de que aproximadamente US$ 9 trilhões em títulos de baixo juro emitidos no período pós-pandemia precisam ser rolados em 2026 — nas taxas de hoje, que são múltiplas vezes mais altas do que as taxas originais.

É esse rolamento que é o maior risco estrutural do momento. Quando um título de 2% emitido em 2020 vence e precisa ser substituído por um título de 5,2%, o custo anual de serviço daquela parcela da dívida quase triplica. Multiplicado por US$ 9 trilhões em rollover, o impacto é astronômico — e é automático, independente de qualquer decisão política.

O CBO diz que, em última análise, o Congresso precisará aumentar impostos, cortar gastos — ou, mais provavelmente, fazer as duas coisas. O buyback de Bessent não muda essa equação. Compra tempo para que a pressão política não force uma decisão de pânico.

O que o movimento diz sobre Bessent — e sobre o grau de preocupação do governo americano

A leitura dos analistas mais atentos sobre o anúncio de Bessent vai além do efeito técnico nos yields. É um sinal sobre o nível de preocupação do governo americano com o que está acontecendo no mercado de bonds.

O Conselho de Relações Exteriores (CFR) publicou análise afirmando que ações de economias avançadas para limitar yields crescentes de bonds soberanos dificilmente serão duráveis sem mudança adicional de política ou uma desaceleração econômica material — sendo que a primeira é improvável e a segunda é indesejada.

A análise da Savvy Wealth foi precisa em sua calibragem: "Isso não resolve os problemas subjacentes em torno de déficits, inflação ou oferta de Treasuries. Mas compra algum tempo e, talvez mais importante, sinaliza que o Tesouro tem ferramentas disponíveis e está disposto a usá-las quando as condições de mercado justificam."

A pergunta implícita nas duas análises é a mesma: se o problema é a incompatibilidade entre a oferta de Treasuries (crescente, impulsionada por déficits recordes) e a demanda (insuficiente para absorver essa oferta nos yields atuais), como uma recompra de US$ 83 bilhões resolve algo quando o governo precisa emitir mais de US$ 2 trilhões em nova dívida? A matemática simplesmente não fecha — o buyback reduz temporariamente o estoque de títulos longos disponíveis no mercado enquanto o governo continua adicionando títulos na mesma proporção pelo outro lado.

As implicações para os mercados financeiros globais

O que acontece no mercado de Treasuries não fica no mercado de Treasuries. É a taxa livre de risco de referência para a precificação de todos os outros ativos do planeta — e seus movimentos se propagam imediatamente.

Ações americanas: yields mais altos comprimem os múltiplos de valuação das ações de crescimento — porque os fluxos de caixa futuros são descontados a uma taxa maior. O S&P 500 e o Nasdaq são especialmente sensíveis ao yield de 10 anos; quando ele sobe significativamente, os múltiplos P/L comprimem mesmo que os lucros se mantenham. A alta de yields de terça foi seguida de queda nas futuros das ações — que então se recuperaram após o anúncio de Bessent.

Mercados emergentes: yields americanos mais altos atraem capital de volta aos EUA e pressionam as moedas e bonds de países emergentes — incluindo o Brasil. O real, o rand sul-africano, a lira turca e o peso colombiano sofrem quando os Treasuries ficam mais competitivos em termos de retorno. É exatamente o mecanismo que contribui para a saída de estrangeiros da B3, documentada nos artigos anteriores desta série.

Hipotecas americanas: a taxa de hipoteca de 30 anos nos EUA segue de perto o yield do Treasury de 10 anos. Com o Treasury de 10 anos em 4,647% após o buyback, as hipotecas americanas estão próximas de 7% — um nível que efetivamente paralisa o mercado imobiliário para compradores de primeira viagem. O impacto na construção civil, nos REITs residenciais e nos bancos expostos ao setor imobiliário é direto.

Ouro e ativos de proteção: quando o mercado questiona a sustentabilidade fiscal americana, o ouro — que não tem risco de contraparte e não pode ser impresso — tende a se beneficiar. A convergência de yields altos, deficit recorde e dívida cruzando US$ 40 trilhões é exatamente o ambiente que alimenta a demanda por ativos de reserva alternativa.

Oportunidades e riscos para o investidor

Para o investidor que pensa em alocação de longo prazo, o cenário atual nos Treasuries é um dos mais complexos e assimétricos dos últimos 20 anos — com argumentos genuinamente fortes tanto para a oportunidade quanto para o risco adicional.

O argumento da oportunidade

Yields de 5,2-5,3% nos Treasuries de 30 anos são historicamente elevados em termos reais. O investidor que compra hoje e carrega até o vencimento garante esse retorno independentemente do que acontece com os preços de mercado no meio do caminho. Para o investidor brasileiro que quer renda em dólar, um Treasury de 30 anos a 5,2% é uma das melhores taxas disponíveis em renda fixa soberana americana em duas décadas.

A tese de marcação a mercado também tem lógica: se os yields caírem de 5,3% para 4% ao longo de 2-3 anos — seja por recessão, por deflação ou por cortes agressivos do Fed — um título com duration de 17 anos ganha aproximadamente 22% no preço, além do cupom. É uma aposta assimétrica se o investidor tem convicção na queda dos yields.

O argumento do risco adicional

O buyback de Bessent foi tecnicamente eficaz na terça — e os yields rebotaram na quinta. Isso confirma o que a NPR e o CFR disseram: a intervenção compra tempo, não resolve o problema estrutural. Um governo com deficit mensal de US$ 432 bilhões, juros anuais de US$ 1,1 trilhão e US$ 9 trilhões para rolar está numa trajetória que eventualmente ou provoca uma crise fiscal ou força um ajuste político doloroso.

O risco específico para o investidor em Treasuries longos hoje é que a deterioração fiscal americana continue — e que o term premium que os investidores exigem para carregar títulos longos continue subindo. Se o yield de 30 anos subir para 6% ou além antes de cair, as perdas de marcação a mercado podem ser substanciais mesmo para quem tem convicção no longo prazo.

A Barclays projeta yield de 5,5% no 30 anos. O Congress.net coloca 6% como possibilidade no cenário pessimista. Em qualquer desses cenários, o TLT — o maior ETF de Treasuries longos — sofre perdas adicionais de 3-10% antes de qualquer recuperação.

O que monitorar

  1. A próxima leilão de Treasuries longos: a demanda nas licitações do Tesouro americano — especialmente o bid-to-cover ratio e o percentual alocado a investidores estrangeiros — é o indicador mais direto de se o "buyers' strike" está terminando ou se aprofundando;

  2. O conflito EUA-Israel-Irã: qualquer escalada adicional reacende o risco inflacionário e reverte expectativas de corte de Fed. Qualquer desescalada tem o efeito oposto;

  3. A posição do Fed: três membros do FOMC dissentiram em favor de alta em julho — o que o mercado interpretou como sinal de que o ciclo de cortes pode ter acabado mais cedo do que esperado. O dado de CPI de julho e agosto determinará se o Fed confirma ou reverte essa sinalização;

  4. O Japão: qualquer sinal de que o Banco do Japão está considerando vender Treasuries para defender o iene é imediatamente negativo para os yields americanos. Bessent já interveio uma vez; um segundo teste é possível;

  5. A trajetória do deficit: o deficit de julho (US$ 432 bilhões) foi o quarto maior mensal da história. Se os próximos meses mostrarem deficit similar, a matemática de oferta de Treasuries se torna ainda mais desafiadora.

Conclusão: o buyback tático num problema estratégico

Scott Bessent é, por qualquer medida, um dos operadores de mercado mais sofisticados a ocupar o cargo de secretário do Tesouro americano. Sua intervenção no dia 19 de agosto foi tecnicamente precisa — aproveitou liquidez baixa de agosto, surpreendeu o mercado e produziu o efeito de curto prazo que precisava. A Evercore ISI o chamou de "tático habilidoso." A descrição é justa.

O problema é que táticas brilhantes não resolvem problemas estratégicos. Uma dívida de US$ 40 trilhões crescendo a US$ 432 bilhões por mês, com US$ 1,1 trilhão em juros anuais que não param de subir, não é um problema de liquidez que um programa de recompra de US$ 83 bilhões resolve. É um problema de solvência de longo prazo que exige, como a NPR resumiu, aumento de impostos, corte de gastos — ou ambos.

Para o investidor, a mensagem é dupla: yields de 5,2-5,3% nos Treasuries de 30 anos representam uma das melhores taxas em renda fixa soberana americana em duas décadas — e isso é uma oportunidade real para quem quer renda em dólar. Mas a volatilidade que os Treasuries longos exibiram esta semana — de máxima de 19 anos para queda após buyback e rebote no dia seguinte — é uma prévia de um mercado que ainda não encontrou seu equilíbrio. Posicionar-se nesse mercado exige convicção, horizonte e tamanho de posição adequados ao risco.

Use o Mapa do Investidor Internacional para entender como posicionar exposição a renda fixa americana neste cenário. Se preferir conversar com nosso time, clique no botão vermelho.

As informações deste artigo têm caráter educativo e refletem dados de 18-20 de agosto de 2026. Yields e preços de títulos mudam diariamente. Nada neste conteúdo constitui recomendação individual de investimento.

Perguntas frequentes

Por que o yield do T-Bond de 30 anos atingiu máxima em 19 anos?

Cinco forças convergentes: (1) Conflito EUA-Israel-Irã — preocupações com escalada iminente pressionam energia, alimentam inflação e revertem expectativas de corte de juros; (2) Deterioração fiscal americana — deficit de US$ 432 bilhões em julho (4º maior mensal da história), dívida cruzando US$ 40 trilhões, juros anuais de US$ 1,1 trilhão agora superando Medicare como segunda maior despesa federal; (3) Rebaixamento da Moody's em 2025 — retirou o último rating perfeito americano, adicionando term premium persistente; (4) 'Buyers strike' desde junho — investidores pararam de absorver os volumes de títulos longos que o governo precisa emitir; (5) Risco de venda japonesa de Treasuries — com o iene em mínima de 40 anos frente ao dólar, há incentivo para o Banco do Japão vender Treasuries e comprar ienes, o que Bessent tentou prevenir com intervenção cambial conjunta em 1º de agosto.

O que é o programa de recompra do Tesouro americano e como ele funciona?

O buyback do Tesouro é diferente do QE do Fed: o governo compra de volta seus próprios títulos antes do vencimento, pagando o preço de mercado. Isso injeta liquidez no mercado (vendedores recebem dinheiro), aumenta temporariamente a demanda por esses títulos (sobe o preço, derruba o yield) e reduz a oferta disponível no mercado secundário. O programa acelerado de Bessent dobrou as operações de US$ 2 bilhões para pelo menos US$ 4 bilhões por operação, direcionadas aos segmentos de 10 a 20 anos e 20 a 30 anos da curva. Três recompras de títulos de 20-30 anos e quatro de 10-20 anos estão programadas entre setembro e novembro, adicionando pelo menos US$ 14 bilhões de liquidez e elevando o total para até US$ 83 bilhões no período. O efeito: yields caíram imediatamente após o anúncio e rebotaram no dia seguinte — sinal de que o mercado viu como intervenção tática, não como mudança estrutural.

O buyback de Bessent resolve o problema da dívida americana?

Não — e os analistas foram unânimes nisso. O CFR avaliou que 'ações para limitar yields crescentes dificilmente serão duráveis sem mudança adicional de política ou desaceleração econômica material'. A Evercore ISI questionou se o movimento teria impacto duradouro dado que o Tesouro ainda precisa financiar uma 'maré montante' de dívida e déficits. A Savvy Wealth resumiu: 'Não resolve os problemas subjacentes em torno de déficits, inflação ou oferta de Treasuries. Mas compra algum tempo.' O problema estrutural: um governo com deficit mensal de US$ 432 bilhões, juros anuais de US$ 1,1 trilhão e US$ 9 trilhões para rolar em 2026 não é solucionado por recompras de US$ 83 bilhões. O CBO é direto: em última análise, o Congresso precisará aumentar impostos, cortar gastos — ou ambos.

Qual é o custo real da dívida americana de US$ 40 trilhões para o governo?

Em 2026, os juros anuais sobre a dívida consomem aproximadamente US$ 1,1 trilhão — tornando-se a segunda maior despesa federal, atrás apenas da Previdência Social e à frente do Medicare e do Pentágono. Em 2025, pela primeira vez, o serviço da dívida superou os gastos com defesa. O CBO projeta que os gastos líquidos com juros aumentarão de 3,3% do PIB em 2026 para 4,6% em 2036 e 6,9% em 2056. O problema de rollover é o mais urgente: aproximadamente US$ 9 trilhões em títulos emitidos com yields próximos de 0% no período pós-pandemia precisam ser rolados em 2026 às taxas atuais de 4,5-5,3%. Quando um título de 0,5% vence e é substituído por um de 5%, o custo de serviço daquela parcela da dívida multiplica por 10 — automaticamente, independente de qualquer decisão política.

O que o yield de 5,3% no T-Bond de 30 anos significa para o investidor brasileiro?

É uma das melhores taxas disponíveis em renda fixa soberana americana em duas décadas — e cria oportunidades e riscos simultaneamente. A oportunidade: o investidor que compra hoje e carrega até o vencimento garante 5,2-5,3% em dólar ao ano, independentemente da volatilidade de curto prazo. Se os yields caírem para 4% nos próximos 2-3 anos (por recessão, deflação ou cortes do Fed), um título com duration de 17 anos ganha aproximadamente 22% no preço além do cupom. O risco: se os yields subirem para 5,5-6% antes de cair (cenários da Barclays e Congress.net), as perdas de marcação a mercado são expressivas. A volatilidade desta semana — máxima de 19 anos, queda após buyback, rebote no dia seguinte — é prévia de um mercado que ainda não encontrou equilíbrio. Para o investidor brasileiro: ETFs como SGOV/SHY para renda sem risco de duration; TLT para quem tem convicção na queda dos yields com horizonte de 2-3 anos. Discutido em detalhe no artigo de Treasuries desta série.

Como a situação fiscal americana afeta os mercados emergentes e o Brasil?

Por três canais de transmissão: (1) Yields mais altos atraem capital de volta aos EUA — quando o Treasury de 30 anos paga 5,3%, investidores globais têm menos incentivo para aceitar risco de emergentes por rendimentos similares ou menores. Isso pressiona as moedas e os ativos de países como Brasil, reduzindo o fluxo de capital estrangeiro — exatamente o que documentamos no artigo sobre saída de estrangeiros da B3; (2) Real mais fraco — a saída de capital para os EUA valoriza o dólar e deprecia o real, alimentando inflação importada e complicando a política monetária do Banco Central; (3) Custo de financiamento externo mais alto — títulos brasileiros no exterior precisam pagar mais para competir com Treasuries em patamares elevados, aumentando o custo de captação do governo e de empresas brasileiras no mercado internacional.

Fontes e referências

João Augusto C. Fernandes

Escrito por

João Augusto C. Fernandes

Sócio da Wiser Investimentos | BTG Pactual e fundador da plataforma InvestGlobal.

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