Em 24 de julho de 2026, durante painel na Expert XP em São Paulo, o ministro da Fazenda Dario Durigan disse uma frase que os dados do próprio governo contradizem: "Acho que há um exagero nesse argumento das medidas de crédito que o governo tem anunciado e seus efeitos na inflação. Neste ano, o que faz aumentar a pressão inflacionária é a guerra do Irã. Não são as medidas do governo que estão gerando pressão inflacionária."
Três semanas depois, em 21 de agosto, Durigan repetiu a tese — desta vez com um acréscimo político: a guerra que causa a inflação brasileira é "apoiada pelo bolsonarismo."
O problema da tese não é que a guerra no Oriente Médio não exista — ela existe, e tem efeitos reais sobre os preços de energia e alimentos no Brasil e no mundo. O problema é o que a tese deixa de fora: que o Banco Central do próprio governo brasileiro diz, em linguagem comedida mas inequívoca, algo diferente. Que os dados fiscais publicados pelo próprio Tesouro Nacional contradizem a narrativa. E que o ministério que Durigan dirige não está atingindo as metas que Durigan diz estar atingindo.
Este artigo não é sobre política. É sobre o que os dados dizem.
O contexto: Em 24 de julho e 21 de agosto de 2026, o ministro Dario Durigan afirmou que a inflação brasileira é causada pela guerra no Oriente Médio, não pelos gastos do governo. Os dados: déficit primário de R$ 53 bilhões em maio (meta era superávit de R$ 34,3 bilhões); dívida pública em R$ 9 trilhões com alta de R$ 234,4 bilhões em maio; Selic em 14,00% após o Banco Central indicar, em seus relatórios, que o "arrefecimento da disciplina fiscal" exige cautela na queda dos juros; IPCA projetado pelo Focus em 5,12% para 2026 — acima da meta de 3%. A guerra tem efeito sobre os preços. Mas o Banco Central, os economistas de mercado e os próprios dados fiscais do governo dizem que o fiscal também tem.
O que Durigan disse — e o que os dados do próprio governo mostram
A declaração de Durigan na Expert XP em julho veio acompanhada de outras afirmações que o Poder360 documentou com verificação factual. Em entrevista à GloboNews em 6 de agosto, o ministro afirmou que "o crescimento está próximo de 3%". A expectativa de analistas de mercado para o PIB em 2026 está em 1,98%. O IBC-Br, indicador do próprio Banco Central que serve de prévia do PIB, caiu 0,6% em junho de 2026 em relação a maio.
Na mesma entrevista, Durigan disse que o governo "não deu calote em precatório." O projeto de LDO de 2027 apresentado pelo governo em abril de 2026 propõe que R$ 347 bilhões em precatórios fiquem fora da meta fiscal até 2035. Ficar sem pagar por nove anos tem um nome — mas não é o que o ministro usou.
Sobre a meta fiscal: a meta do governo para 2026 é de superávit primário de R$ 34,3 bilhões. Em maio, as contas públicas fecharam com déficit primário de R$ 53 bilhões. A dívida pública atingiu R$ 9 trilhões, com aumento de R$ 234,4 bilhões no mesmo mês.
A distância entre a meta declarada (superávit de R$ 34,3 bilhões) e o resultado observado (déficit de R$ 53 bilhões em apenas um mês) é de R$ 87 bilhões — e isso em maio, muito antes do encerramento do exercício fiscal.
O que o Banco Central diz sobre a inflação — sem mencionar guerra
A análise mais relevante sobre as causas da inflação brasileira não vem de economistas de oposição nem de veículos críticos ao governo. Vem do próprio Banco Central — a instituição que o próprio Durigan cita quando afirma que "o Banco Central está preocupado com a inflação."
Os textos do Copom têm levado em conta o "arrefecimento da disciplina fiscal" do Planalto para a redução gradual na taxa Selic. A fórmula é diplomática — é o Banco Central, que precisa manter relação institucional com o Executivo. Mas o conteúdo é claro: a política fiscal está contribuindo para manter a inflação e os juros em patamares que seriam desnecessariamente altos se o fiscal estivesse em ordem.
Os textos elípticos do BC contêm críticas a itens da política fiscal. A autoridade monetária indica, de forma comedida, que a inflação e os juros poderiam ser inferiores aos patamares atuais com medidas que resultassem em maior controle de gastos e menos crédito subsidiado na economia.
Traduzindo a linguagem do Banco Central para o português direto: se o governo gastasse menos e subsidiasse menos crédito, a inflação seria menor e a Selic poderia cair mais rápido.
Isso não é a posição de oposicionistas. É a posição do Comitê de Política Monetária, cujo presidente é indicado pelo próprio governo.
A guerra tem efeito — mas não é o único
Seria desonesto negar que a guerra no Oriente Médio tem efeito sobre os preços brasileiros. Tem. O conflito limita a produção mundial de fertilizantes, impacta os preços de combustíveis e cria pressão sobre os custos agrícolas. Esses efeitos são reais, documentados e sentidos por qualquer produtor rural brasileiro que compra insumos importados.
Mas há uma distinção fundamental entre "a guerra contribui para a inflação" e "a inflação é causada pela guerra, não pelo fiscal." A primeira afirmação é verificável e verdadeira. A segunda afirmação é o que Durigan disse — e o que os dados contradizem.
Para compreender por quê, basta olhar para o que acontece com a inflação nos países que também sofreram os mesmos choques externos da guerra mas mantiveram disciplina fiscal. O Banco Central é explícito: a inflação e os juros no Brasil poderiam ser mais baixos com maior controle fiscal. Se a guerra fosse a única causa, todos os países com a mesma exposição ao choque teriam a mesma inflação. Não têm.
A inflação brasileira tem componentes externos — guerra, petróleo, fertilizantes — e componentes domésticos — gastos públicos acima das metas, crédito subsidiado que estimula a demanda acima da capacidade da economia, e desconfiança fiscal que mantém o prêmio de risco elevado. Atribuir o fenômeno a apenas uma das causas é uma simplificação conveniente no contexto eleitoral em que a declaração foi feita.
Quem é Dario Durigan e por que isso importa
Entender a declaração de Durigan exige entender quem ele é — não por ad hominem, mas porque a formação e a trajetória de um ministro da Fazenda são dados relevantes para avaliar a qualidade de suas análises econômicas.
Dario Durigan é advogado formado pela Universidade Federal do Paraná. Não tem formação em Economia, não tem especialização em política monetária, política fiscal ou macroeconomia. Sua trajetória antes do Ministério da Fazenda passou pela Secretaria Executiva da pasta, onde ingressou em junho de 2023, e antes por funções no Ministério da Justiça durante governos anteriores do PT.
Isso não o impede de gerir a pasta — ministros não precisam ter formação específica na área do ministério. Mas cria uma assimetria relevante quando ele contradiz economistas do mercado financeiro, o Banco Central e os próprios dados do Tesouro com afirmações sobre causalidade macroeconômica.
Ministros da Fazenda com formação técnica em economia — como Henrique Meirelles, Pedro Malan, Arminio Fraga ou Paulo Guedes — quando discordavam do mercado ou do Banco Central, faziam com base em frameworks teóricos identificáveis e dados específicos. A divergência podia ser avaliada tecnicamente. Quando a divergência é do tipo "é a guerra, não o fiscal" sem qualificação metodológica, ela se torna mais difícil de verificar — e mais fácil de usar como narrativa.
O que o mercado diz que não aparece no noticiário
A resposta do mercado financeiro à gestão fiscal do governo Lula está nos dados que este artigo e os anteriores desta série documentaram exaustivamente. O JPMorgan rebaixou o Brasil de overweight para neutro. Estrangeiros retiraram R$ 5,55 bilhões da B3 nos primeiros dias de agosto. A Moody's piorou a perspectiva do rating soberano de positiva para estável. A Fitch disse que não há melhora de nota antes de 2027.
Nenhuma dessas instituições atribuiu sua posição à guerra no Oriente Médio. Todas documentaram, explicitamente, preocupações com a trajetória fiscal brasileira.
Daniella Marques, coordenadora do núcleo econômico da campanha de Flávio Bolsonaro e ex-presidente da Caixa Econômica Federal, disse em conferência do banco Santander que "nem os bancos querem fazer o L, porque sabem que tem 100% de chance de dar errado." É uma afirmação política — mas ancorada numa percepção do mercado financeiro que os dados de fluxo de capital confirmam.
A guerra é real. A inflação fiscal também é. E a diferença importa.
Este artigo não defende que a guerra no Oriente Médio não existe nem que não tem efeitos inflacionários. Defende que a análise honesta de um fenômeno econômico complexo — como a inflação — exige reconhecer todos os seus determinantes, não apenas os convenientes.
O Banco Central reconhece ambos. Os economistas de mercado reconhecem ambos. O Fundo Monetário Internacional, em suas análises do Brasil, reconhece ambos. Países que sofreram os mesmos choques externos mas mantiveram disciplina fiscal têm inflação menor que o Brasil — o que é evidência de que o componente fiscal importa, independentemente de quanto a guerra também importe.
Para o investidor, a questão prática é esta: um governo que atribui a inflação exclusivamente a causas externas não está, em decorrência, identificando os instrumentos domésticos que precisaria ajustar para reduzi-la. E um governo que não identifica corretamente as causas de um problema dificilmente adotará as soluções adequadas para resolvê-lo.
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As informações deste artigo têm caráter educativo e refletem dados públicos disponíveis em agosto de 2026. As declarações do ministro Durigan e os dados fiscais citados estão disponíveis nas fontes indicadas. Nada neste conteúdo constitui recomendação individual de investimento.






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