Em 2005, um ex-médico de 34 anos que administrava um pequeno fundo de hedge na Califórnia começou a estudar o mercado de hipotecas subprime americano com um nível de detalhe que nenhum analista de Wall Street havia feito. Suas conclusões eram alarmantes: o mercado imobiliário americano estava montado sobre uma bolha de crédito insustentável. Ele apostou contra esse mercado — e ficou anos sendo ridicularizado, perdendo investidores e enfrentando pressão extrema, antes de ser provado certo de forma espetacular em 2008, lucrando centenas de milhões de dólares enquanto o sistema financeiro global quase colapsava.
Esse investidor é Michael Burry — imortalizado no livro e filme "A Grande Aposta" (The Big Short), interpretado por Christian Bale. Em 2025, quase duas décadas depois, Burry voltou às manchetes com uma nova aposta contrária ao consenso: mais de US$ 1 bilhão em opções de venda (puts) contra a Nvidia e a Palantir — duas das empresas mais emblemáticas do boom de inteligência artificial. E, assim como em 2008, ele está disposto a apostar sua reputação nisso.
Resposta rápida: Michael Burry, que previu a crise do subprime em 2008, encerrou seu fundo Scion Asset Management em novembro de 2025 após revelar posições bilionárias contra Nvidia e Palantir. Sua tese central é que as grandes empresas de tecnologia (hyperscalers) estão subestimando a depreciação de chips de IA para inflar artificialmente os lucros reportados — uma manobra contábil que ele estima poderia distorcer os resultados em até US$ 176 bilhões entre 2026 e 2028. Burry compara a situação atual ao "momento Cisco" da bolha pontocom de 2000. O CEO da Palantir, Alex Karp, chamou a aposta de "loucura". Os resultados de sua tese ainda estão sendo testados pelo mercado.
Quem é Michael Burry: a história por trás de "A Grande Aposta"
Michael James Burry nasceu em San Jose, Califórnia, em 1971. Perdeu o olho esquerdo para um câncer de retina aos dois anos de idade e usa um olho de vidro desde então — um detalhe que, segundo ele mesmo relatou, contribuiu para uma percepção social diferente que talvez tenha facilitado sua disposição para pensar de forma independente do consenso.
Formou-se em economia e pré-medicina pela UCLA e obteve seu MD pela Vanderbilt University School of Medicine em 1997. Trabalhou como neurologista residente antes de abandonar a medicina para se dedicar integralmente a investimentos — um movimento incomum que reflete o padrão que definiria toda sua carreira: ele segue sua própria análise, independentemente do que os outros esperam dele.
Fundou a Scion Capital com uma herança e empréstimos da família, batizando o fundo em homenagem a "Os Filhos de Shannara", um de seus romances favoritos. Rapidamente gerou retornos extraordinários para seus investidores através de análise fundamentalista profunda — lendo relatórios financeiros linha por linha de uma forma que poucos gestores faziam.
A previsão que o tornou famoso: o subprime de 2008
Entre 2003 e 2004, Burry mergulhou na análise das práticas de concessão de crédito imobiliário americano. Sua conclusão: as hipotecas subprime — especialmente aquelas com taxas "teaser" que começavam baixas e subiam abruptamente após alguns anos — começariam a perder valor maciçamente quando essas taxas fossem reajustadas, o que ele projetou corretamente que aconteceria a partir de 2007.
A aposta de Burry foi pioneira em sua estrutura: ele convenceu bancos de Wall Street a criarem credit default swaps (CDS) sobre tranches de hipotecas subprime — instrumentos que praticamente não existiam para esse mercado até então. Essencialmente, ele estava comprando um seguro contra o colapso de um mercado que ninguém mais acreditava que fosse colapsar.
O período entre a aposta e sua confirmação foi brutal. Investidores da Scion questionaram sua sanidade, exigiram resgates e o processaram. Bancos de Wall Street, inicialmente céticos sobre a tese, eventualmente perceberam o que ele havia identificado — mas isso não tornou a espera mais fácil. Burry chegou a bloquear resgates de investidores para manter a posição, uma decisão extremamente controversa na época.
Quando o mercado subprime finalmente colapsou em 2007-2008, a Scion Capital obteve um retorno de aproximadamente 489% para seus investidores ao longo da vida do fundo — um dos retornos mais espetaculares da história das finanças modernas, documentado em detalhe no livro de Michael Lewis e no filme de 2015.
O padrão Burry: apostar contra o consenso com convicção extrema
Depois de 2008, Burry continuou demonstrando disposição para apostar contra narrativas dominantes de mercado. Em 2021, alertou sobre os riscos das ações meme, veículos elétricos, empresas de software como serviço (SaaS) e Bitcoin — fazendo comparações explícitas com a bolha pontocom. O mercado de ações meme e cripto efetivamente colapsou nos meses seguintes, embora Burry tenha continuado cético em relação a criptomoedas desde então, inclusive publicando em fevereiro de 2026 um gráfico comparando o estado bearish do Bitcoin ao colapso de 2021-2022.
Curiosamente, Burry não é permanentemente pessimista — ele opera dos dois lados do mercado. Em março de 2026, concordou com a visão otimista do bilionário Bill Ackman sobre a Fannie Mae e a Freddie Mac. Ele também fez uma aposta relevante em ouro: ao final do primeiro trimestre de 2024, possuía 440.729 ações do Sprott Physical Gold Trust, avaliadas em US$ 7,6 milhões — na época, sua quinta maior posição. O ouro, como amplamente discutido nesta série de artigos, teve em 2025 sua maior alta anual desde 1979.
A aposta atual: mais de US$ 1 bilhão contra Nvidia e Palantir
Em novembro de 2025, registros regulatórios revelaram que a Scion Asset Management havia comprado mais de US$ 1 bilhão em opções de venda (puts) — instrumentos que lucram quando o preço de uma ação cai — contra a Nvidia e a Palantir, referentes ao trimestre encerrado em 30 de setembro de 2025.
Os números específicos revelados nos registros: puts sobre 1 milhão de ações da Nvidia com preço de exercício de US$ 110, vencimento em dezembro de 2027; e uma estrutura dupla de posições vendidas contra a Palantir, incluindo puts com preço de exercício de US$ 100 (vencimento dezembro de 2026) e US$ 50 (vencimento junho de 2027), além de posições vendidas diretas adicionais. Burry chegou a dobrar o tamanho dessas posições entre o terceiro trimestre de 2025 e maio de 2026 — com até 80% do portfólio da Scion concentrado nessas apostas.
Logo depois de revelar as posições, Burry tomou uma decisão dramática: encerrou voluntariamente o registro da Scion Asset Management na SEC — efetivamente devolvendo o capital de terceiros e deixando de gerir dinheiro de investidores externos, da mesma forma que havia feito com a Scion Capital em 2008, após a crise do subprime se confirmar. Em 25 de novembro de 2025, publicou no X: "Rumo a coisas muito melhores." Dias depois, lançou um newsletter no Substack chamado "Cassandra Unchained" — uma referência à figura mitológica grega condenada a fazer previsões verdadeiras que ninguém acreditava — com assinatura de US$ 379 por ano, para detalhar seus argumentos sobre a bolha de IA.
A tese central: a manobra contábil da depreciação
O argumento mais técnico e mais controverso de Burry não é sobre se a IA é útil ou se vai mudar o mundo — é sobre como as empresas estão contabilizando seus investimentos em infraestrutura de IA.
Em novembro de 2025, Burry publicou no X uma acusação direta: os hyperscalers — as grandes provedoras de nuvem e infraestrutura de IA, incluindo Microsoft, Meta, Oracle e Amazon — estariam subestimando sistematicamente a depreciação de seus equipamentos, ao estender artificialmente a vida útil estimada dos chips além do que é tecnicamente realista.
O argumento técnico: empresas que investem pesadamente em chips da Nvidia, com ciclo de produto de 2 a 3 anos (cada nova geração de GPU torna a anterior obsoleta rapidamente), não deveriam estender a vida útil contábil desse equipamento. Mas, segundo Burry, é exatamente isso que os hyperscalers fizeram — uma prática que ele caracterizou como "uma das fraudes mais comuns da era moderna". Sua estimativa: entre 2026 e 2028, essa manobra subestimaria a depreciação em aproximadamente US$ 176 bilhões em todo o setor, inflando artificialmente os lucros reportados. Ele apontou especificamente a Oracle e a Meta, estimando que seus lucros poderiam estar superestimados em aproximadamente 27% e 21%, respectivamente, até 2028.
Burry também alegou que a compensação baseada em ações (stock-based compensation) da Nvidia reduziria os "lucros do proprietário" (owner's earnings, métrica popularizada por Warren Buffett) em cerca de 50% — uma crítica que a própria Nvidia contestou publicamente, defendendo seus prazos de depreciação de GPUs.
A comparação com a Cisco e a bolha pontocom
Burry articulou sua tese central com uma analogia histórica direta: "Existe uma Cisco no centro de tudo isso... Seu nome é Nvidia." A comparação não é trivial. A Cisco Systems, fornecedora de equipamentos de rede essenciais para a expansão da internet no final dos anos 1990, tornou-se brevemente a empresa mais valiosa do mundo durante a bolha pontocom — assim como a Nvidia se tornou, com valor de mercado de aproximadamente US$ 5 trilhões, a empresa mais valiosa do mundo atualmente.
O paralelo de Burry: a Cisco era fundamentalmente uma boa empresa, com produtos essenciais para a infraestrutura que estava sendo construída — assim como a Nvidia é hoje. Mas o valuation da Cisco em 2000 presumia um crescimento perpétuo que não se sustentou quando o ciclo de investimento em infraestrutura de internet desacelerou. As ações da Cisco caíram mais de 80% nos anos seguintes e levaram quase duas décadas para recuperar seus níveis máximos.
Lisa Shalett, Chief Investment Officer da Morgan Stanley Wealth Management, expressou preocupação semelhante em setembro de 2025, mencionando temer um "momento Cisco" para o setor de IA nos 24 meses seguintes — uma validação parcial e independente da preocupação de Burry vinda de uma fonte institucional tradicional, não de um investidor conhecido por apostas contrárias.
Sobre a Palantir: a crítica de valuation mais direta
Se a crítica de Burry à Nvidia é primariamente sobre contabilidade de depreciação, sua crítica à Palantir é primariamente sobre valuation. Em um extenso post no Substack com mais de 10.000 palavras, ele argumentou que a Palantir poderia valer apenas US$ 46 por ação — uma fração do preço de negociação na época.
Os números que sustentam essa visão: no momento de sua análise, a Palantir negociava a aproximadamente 180 vezes os lucros estimados para 2026 e mais de 98 vezes as vendas estimadas para 2025 — múltiplos sem precedente histórico para uma empresa de sua escala. Burry comparou a Palantir à DiamondCluster, uma consultoria que teve valorização meteórica no início dos anos 2000 antes de praticamente desaparecer.
A reação do CEO da Palantir, Alex Karp, foi pública e contundente. Em entrevista à CNBC em novembro de 2025, classificou a aposta de Burry como "super estranha" — argumentando que ele estava apostando contra exatamente as empresas que estavam gerando os maiores lucros do momento. Em outra ocasião, chegou a usar linguagem ainda mais direta para descrever a tese de Burry como insensata.
Como a aposta está se saindo até agora
O mercado tem oferecido sinais mistos sobre quem está certo. No lado da Palantir, a tese de Burry mostrou sinais de validação inicial: as ações cratearam significativamente das máximas em determinados momentos de 2026, mesmo com resultados trimestrais que superaram expectativas de receita — o mercado mostrou preocupação com a falta de visibilidade da empresa sobre o restante de 2026, segundo análise do Deutsche Bank.
A Oracle, na qual Burry expandiu posições vendidas adicionalmente, recuou mais de 51% de sua máxima do terceiro trimestre de 2025 em determinado momento de 2026 — um movimento que ele descreveu de forma direta: "Não precisava fazer o que está fazendo. E não sei por que está fazendo isso. Talvez seja ego."
No lado da Nvidia, o quadro é mais misto. As ações mostraram volatilidade significativa — chegando a cair 17% em determinado momento mesmo após resultados recordes —, mas também demonstraram capacidade de recuperação rápida. A Nvidia se tornou a primeira empresa do mundo a atingir US$ 5 trilhões em valor de mercado, validando, ao menos parcialmente, a força do momentum que sustenta a tese otimista.
É importante destacar: as opções de Burry têm vencimento de longo prazo (dezembro de 2026 e 2027), o que significa que a tese ainda tem tempo para se desenrolar — assim como aconteceu com o subprime, onde ele esperou anos entre estabelecer a posição e ser confirmado.
O contraponto: por que a maioria dos analistas discorda
É fundamental que o investidor entenda que a posição de Burry representa uma visão extremamente minoritária em Wall Street. A maioria dos analistas continua otimista com a Nvidia e com o setor de IA de forma geral, por razões substanciais:
Múltiplos mais razoáveis que no passado: mesmo sendo a empresa mais valiosa do mundo, a Nvidia negocia a cerca de 25 vezes os lucros projetados para o próximo ano fiscal — um múltiplo inferior ao de concorrentes como AMD e Intel, e muito distante dos múltiplos estratosféricos da bolha pontocom;
Receita e lucro reais: diferentemente das empresas pontocom de 2000, que frequentemente não tinham receita significativa, a Nvidia, a Microsoft, a Meta e a Amazon geram dezenas de bilhões de dólares em lucro líquido trimestral — a IA já é um negócio rentável para os líderes do setor, não apenas uma promessa;
Demanda estrutural documentada: os artigos anteriores desta série documentam a demanda real e crescente por chips de IA — desde o boom das bolsas de Coreia e Japão (impulsionado por SK Hynix e Samsung fornecendo memória HBM) até os IPOs trilionários de OpenAI e Anthropic, refletindo investimento genuíno em capacidade, não apenas especulação;
Histórico estatístico desfavorável a apostas vendidas de longo prazo: dados da Crestmont Research mostram que todo período contínuo de 20 anos do S&P 500 desde o início do século XX produziu retorno total positivo, incluindo dividendos — apostar contra o mercado de forma estrutural historicamente tem sido uma estratégia perdedora ao longo do tempo, mesmo quando pontualmente correta.
O que o investidor deve extrair desse debate
A disputa Burry vs. Nvidia/Palantir não é sobre quem vai ganhar uma aposta específica — é sobre um conjunto de questões legítimas que todo investidor exposto ao setor de IA deveria considerar:
A questão da depreciação merece atenção, mesmo que a magnitude seja debatível: entender como as empresas contabilizam seus investimentos em infraestrutura de IA é relevante para avaliar a qualidade real dos lucros reportados — independentemente de Burry estar certo sobre os US$ 176 bilhões específicos;
Valuations elevados merecem disciplina, não pânico: múltiplos de 180 vezes lucro, como os da Palantir em determinado momento, historicamente exigem crescimento excepcional e sustentado para se justificar. Isso não significa que a empresa vai falir — significa que o risco de correção é maior;
Diversificação dentro do setor de IA continua sendo a resposta mais robusta: em vez de apostar tudo a favor ou contra empresas específicas, ETFs amplos de tecnologia (QQQ) ou de semicondutores (SOXX, SMH) capturam o crescimento do setor sem a exposição concentrada de uma única tese, seja otimista ou pessimista;
O histórico de Burry merece respeito, mas não certeza: ele acertou o subprime de forma espetacular. Também alertou sobre ações meme, cripto e SaaS em 2021 com resultado misto — algumas dessas teses se confirmaram, outras (como sua visão prolongadamente bearish sobre o mercado em geral nos anos seguintes) o fizeram perder oportunidades de alta substancial. Um histórico de acertos notáveis não garante acerto na próxima aposta.
Cuidados ao interpretar apostas de investidores famosos
Notional value não é o capital investido: os "US$ 1 bilhão" em puts de Burry referem-se ao valor nocional das ações subjacentes — não ao valor efetivamente pago pelas opções, que tipicamente é uma fração muito menor. A magnitude da manchete pode exagerar a exposição real;
Posições podem ser hedge, não convicção direcional pura: não está claro se as posições de Burry representam uma aposta direcional completa ou parte de uma estratégia de hedge mais ampla do portfólio;
Imitar apostas de investidores famosos é arriscado: seguir cegamente a posição de qualquer investidor — otimista ou pessimista — sem entender profundamente a tese e ter capacidade de suportar a volatilidade até a tese se confirmar (ou não) é uma receita para decisões ruins;
Nada neste artigo constitui recomendação de investimento: a análise é educativa, apresentando ambos os lados do debate.
Checklist: como avaliar sua exposição ao debate sobre a bolha de IA
Você entende a diferença entre o argumento de Burry sobre contabilidade de depreciação e o argumento sobre valuation excessivo?
Sua exposição ao setor de IA está diversificada entre múltiplas empresas e segmentos, ou concentrada em poucas apostas de alta convicção?
Você tem horizonte de investimento longo o suficiente para atravessar uma correção, caso ocorra?
Está acompanhando os relatórios trimestrais das hyperscalers para observar mudanças nas práticas de depreciação?
Conclusão: a Cassandra que pode estar certa de novo — ou não
Michael Burry construiu sua reputação sendo o investidor que viu o que ninguém mais queria ver, em 2008. Sua nova aposta contra Nvidia e Palantir o coloca, mais uma vez, na posição desconfortável de Cassandra — a figura mitológica que dá nome ao seu newsletter, condenada a fazer previsões verdadeiras que ninguém acredita.
Mas há uma diferença importante entre 2008 e agora: no subprime, Burry identificou um problema estrutural verificável através de dados objetivos sobre inadimplência de hipotecas. Na IA, ele está questionando práticas contábeis e projeções de demanda futura — terreno mais sujeito a interpretação e mais difícil de verificar antecipadamente.
Para o investidor brasileiro exposto ao setor de IA através de ETFs, ações individuais ou fundos internacionais, o debate Burry vs. consenso de mercado não exige escolher um lado — exige entender os dois argumentos e garantir que a exposição ao setor seja proporcional à convicção real, não ao entusiasmo do momento.
Use o Mapa do Investidor Internacional para entender como estruturar exposição ao setor de tecnologia de forma equilibrada para o seu perfil. Se preferir conversar com nosso time, clique no botão vermelho.
As informações deste artigo têm caráter educativo e refletem dados públicos disponíveis em junho de 2026. As posições e teses de investidores específicos, incluindo Michael Burry, são apresentadas para fins informativos e não constituem endosso ou recomendação. Investimentos em ações individuais envolvem risco significativo de perda. Consulte sempre um profissional habilitado antes de tomar decisões.








