O IPO da SpaceX em 12 de junho de 2026 captou US$ 75 bilhões — o maior da história. E Wall Street já está olhando para frente: 2026 pode ser o ano mais significativo de aberturas de capital desde a bolha da internet. Uma combinação de empresas extraordinárias, valuations sem precedente e um ciclo de liquidez que as manteve privadas por mais tempo do que qualquer geração anterior criou uma fila de IPOs que pode redefinir o mercado de capitais global.
No centro dessa fila estão dois nomes que qualquer pessoa que usa tecnologia conhece: OpenAI, criadora do ChatGPT, e Anthropic, criadora do Claude. Ambas correm para serem as primeiras empresas de IA a abrir capital em valuation acima de US$ 1 trilhão. Atrás delas, uma série de outros unicórnios aguarda o momento certo: Stripe, Databricks, Discord, Klarna e outros.
Resposta rápida: OpenAI protocolou confidencialmente seu S-1 em 22 de maio de 2026, com valuation alvo de US$ 852 bilhões a US$ 1 trilhão e estreia prevista para Q4 2026. Anthropic protocolou em 1º de junho, com valuation de US$ 965 bilhões e estreia prevista para outubro. Ambas têm crescimento de receita extraordinário — mas ainda operam com prejuízo. O ano de 2026 pode superar todos os recordes históricos de volume captado em IPOs.
Por que 2026 é o ano dos mega-IPOs
Para entender o que está acontecendo, é preciso entender o contexto. O ciclo de 2021 foi marcado por SPACs e IPOs de empresas sem receita relevante — muitas das quais colapsaram quando os juros subiram em 2022. O mercado de IPOs praticamente congelou em 2022 e 2023, forçando empresas que normalmente já teriam aberto capital a continuar captando em rodadas privadas.
O resultado: uma acumulação histórica de empresas maduras, com receita real e modelos de negócio comprovados, que estão agora prontas para o mercado público — e cujos investidores privados esperam liquidez. A Goldman Sachs projeta que 2026 pode superar os US$ 160 bilhões em volume total de IPOs americanos — contra US$ 163 bilhões em 2021, que era o recorde.
Três fatores convergem para criar esse ambiente: a. queda dos juros americanos (o Fed reduziu a taxa cinco vezes desde setembro de 2024, chegando a 3,50%–3,75%); b. recuperação da demanda por ações de crescimento; c. um pipeline de empresas de IA que têm crescimento de receita sem precedente na história corporativa.
OpenAI: o IPO mais aguardado da história — e o mais complexo
A OpenAI é a empresa mais reconhecida da nova era da inteligência artificial. O ChatGPT tem mais de 900 milhões de usuários ativos semanais — uma das plataformas de crescimento mais rápido da história da internet. A receita da empresa chegou a US$ 20 bilhões em 2025, crescendo de US$ 2 bilhões anualizados em 2023. Em 2026, gera US$ 2 bilhões de receita por mês.
Em 22 de maio de 2026, a OpenAI protocolou confidencialmente seu S-1 na SEC — o primeiro passo formal para um IPO. A Goldman Sachs e o Morgan Stanley lideram o processo. A estreia no mercado público está prevista para o Q4 2026, possivelmente em setembro.
O que a OpenAI tem a favor
Escala sem precedente: 900 milhões de usuários semanais, 50 milhões de assinantes pagos e mais de 40% da receita gerada por contratos enterprise — uma base de clientes corporativos que cria receita recorrente previsível;
Liderança de marca: o ChatGPT é sinônimo de IA generativa para a maioria das pessoas, da mesma forma que o Google é sinônimo de busca. Esse posicionamento de marca tem valor econômico real e difícil de replicar;
Parceria com Microsoft: o Azure é o backbone de infraestrutura da OpenAI, com acordo renegociado em abril de 2026 que clarificou os termos para o IPO. A Microsoft tem participação e direitos de receita que serão detalhados no S-1 público;
Expansão para publicidade: um piloto interno de publicidade atingiu US$ 100 milhões de receita anualizada em menos de seis semanas, com meta de US$ 2,5 bilhões em receita publicitária até o final de 2026.
Os riscos que tornam a OpenAI complexa
Prejuízo estrutural: a OpenAI perde US$ 1,22 para cada US$ 1 de receita — o custo de treinamento e inferência dos modelos de linguagem é extraordinariamente alto. Em Q1 de 2026, o prejuízo líquido por dólar de receita se aprofundou. A empresa ainda não demonstrou caminho claro para lucratividade;
Reestruturação societária em andamento: a OpenAI precisa converter sua estrutura de organização sem fins lucrativos para uma Public Benefit Corporation antes do IPO. O processo está em curso mas ainda não concluído — e envolve negociações complexas sobre os direitos da entidade sem fins lucrativos original;
Conflito com Elon Musk: a disputa judicial de Musk com a OpenAI — alegando desvio de missão original — continua em aberto e pode criar incerteza regulatória e reputacional durante o processo de IPO;
Competição crescente: Anthropic, Google Gemini, Meta Llama e outros competidores estão investindo bilhões para capturar o mesmo mercado. A vantagem da OpenAI é real, mas não é garantida para sempre.
Anthropic: a IA de crescimento mais rápido que empresa da história
A Anthropic foi fundada em 2021 por ex-pesquisadores da OpenAI, com foco explícito em segurança e alinhamento de IA. Criadora do Claude (fala-se 'clôd') a empresa vem construindo uma reputação de IA mais cautelosa e confiável, especialmente no segmento enterprise.
Em 1º de junho de 2026, a Anthropic protocolou confidencialmente seu S-1 — tornando-se o primeiro laboratório de IA de fronteira a entrar formalmente no processo de IPO. A estreia está prevista para outubro de 2026, com Goldman Sachs e JPMorgan liderando o processo.
Crescimento de receita sem precedente
Os números da Anthropic são difíceis de contextualizar porque não têm precedente histórico. A receita anualizada foi de US$ 9 bilhões em janeiro de 2026, passou para US$ 19 bilhões em março e chegou a US$ 47 bilhões em maio — crescimento de mais de 5 vezes em apenas cinco meses. Para referência: o Spotify levou mais de uma década para alcançar US$ 15 bilhões de receita anual.
Em maio de 2026, a Anthropic captou US$ 65 bilhões na sua rodada H, elevando seu valuation para US$ 965 bilhões — a apenas 3,5% de distância do primeiro trilhão. A Fortune projetou que Anthropic, SpaceX e OpenAI serão os três primeiros IPOs trilionários da história em 2026.
O modelo de negócio enterprise-first
A diferença estratégica da Anthropic em relação à OpenAI está no foco. Enquanto a OpenAI construiu uma base enorme de usuários consumer com o ChatGPT, a Anthropic priorizou o mercado enterprise — contratos com Amazon (AWS Bedrock), Google Cloud, Salesforce e centenas de empresas que pagam por acesso ao Claude via API. Esse modelo gera receita por dólar mais alta e menor custo de aquisição de clientes.
O primeiro lucro operacional da Anthropic está previsto para o Q2 de 2026 — um marco que a OpenAI ainda não atingiu. Para uma empresa em crescimento acelerado, esse é um sinal relevante de disciplina financeira.
Os riscos da Anthropic
Crescimento de receita sustentável? Crescer de US$ 9 bi para US$ 47 bi em cinco meses é extraordinário — mas também levanta a questão sobre o quão representativos são esses números. Parte do crescimento pode refletir contratos de longo prazo reconhecidos no período;
Concentração em poucos clientes: Amazon e Google são os dois maiores parceiros e investidores da Anthropic. Essa dependência pode criar conflitos de interesse após o IPO;
Valuation de quase US$ 1 trilhão para uma empresa com 5 anos: os múltiplos implícitos ainda são historicamente elevados, mesmo com o crescimento extraordinário.
A corrida entre OpenAI e Anthropic: quem chega primeiro ao trilhão?
A competição entre as duas empresas vai além dos produtos — é uma corrida pelo acesso ao mercado público. A Anthropic saiu à frente ao protocolar o S-1 antes da OpenAI. O Wall Street Journal reportou que a OpenAI quer abrir capital antes da rival — o que empurrou a potencial estreia para setembro.
A ironia não passa despercebida: a OpenAI foi fundada parcialmente pela Anthropic — que se separou da OpenAI em 2021 por discordâncias sobre a direção estratégica da empresa. Agora competem pelo mesmo mercado, pelo mesmo capital e, potencialmente, pelas mesmas datas de IPO.
Para o investidor, a diferença relevante está no perfil: a OpenAI é consumer-first com escala de plataforma; a Anthropic é enterprise-first com foco em segurança. São apostas diferentes na mesma tese macro — a dominância da IA generativa como infraestrutura da nova economia.
As outras empresas na fila: Stripe, Databricks e mais
OpenAI e Anthropic dominam as manchetes, mas a fila de 2026 vai muito além das empresas de IA:
Stripe — pagamentos digitais a US$ 159 bilhões
A Stripe é a empresa de pagamentos digitais mais valiosa do mundo fora da bolsa: processou US$ 1,9 trilhão em volume de transações em 2025 (+34% sobre 2024) e tem 57% dos clientes fora dos EUA. Com receita de US$ 5,4 bilhões e crescimento de 65%, é lucrativa e não precisa de capital urgente. O cofundador John Collison declarou em janeiro de 2026 que a empresa está "sem pressa" para abrir capital — mas ofertas secundárias a funcionários sugerem que o processo avança.
Databricks — infraestrutura de dados para IA
A Databricks levantou US$ 5 bilhões em rodada recente e tem US$ 2 bilhões adicionais em capacidade de dívida. É a principal plataforma de engenharia de dados e IA para empresas — um segmento que cresce estruturalmente com a adoção de IA em todos os setores. Um dos candidatos mais sólidos ao IPO ainda em 2026.
Klarna — fintech de buy-now-pay-later
A Klarna, principal concorrente do Affirm no segmento de parcelamento digital, foi avaliada em US$ 6,7 bilhões em 2022 — e hoje está sendo avaliada acima de US$ 15 bilhões em transações secundárias. Rentável, com presença em múltiplos países e parceria com a OpenAI para integração de IA nos serviços de pagamento.
Discord — a rede social de comunidades
A plataforma de comunicação por voz e texto, popular entre gamers e comunidades online, protocolou confidencialmente na SEC no início de 2026. Avaliada em US$ 15 bilhões em 2021, sem valuation atualizado confirmado. Base de usuários grande mas modelo de monetização ainda em desenvolvimento.
O que 2026 significa para o mercado de capitais
Se SpaceX, OpenAI e Anthropic abrirem capital no mesmo ano com valuations trilionários, 2026 será o ano mais significativo da história dos mercados de capitais americanos — tanto em volume captado quanto em impacto estrutural no S&P 500 e nos índices de referência.
Há, no entanto, uma dinâmica importante que o investidor deve entender: capital que flui para novos IPOs de alta visibilidade tende a sair de algum lugar. Analistas já apontam que a demanda por SPCX, OpenAI e Anthropic pode pressionar as ações das Magnificent Seven no curto prazo — dinheiro que ia para Nvidia, Microsoft ou Alphabet pode ser redirecionado para os novos entrantes. O mesmo já parece ter ocorrido com o Bitcoin, que cocorre com os investimentos de IA, e já vinha sofrendo com quedas em sua cotação e cujas baixas se acentuaram com a proximidade do IPO da SpaceX. Esse efeito de rotação é temporário, mas real.
Como o investidor brasileiro pode se posicionar antes dos IPOs
Antes dos IPOs formais, as opções de acesso para o investidor pessoa física são limitadas — mas existem:
Mercados secundários de ações privadas: plataformas disponíveis no exterior como Hiive, Forge Global e EquityZen permitem compra de ações de empresas privadas de funcionários e investidores que buscam liquidez. Ações da Anthropic são negociadas nesses mercados a cerca de US$ 1.447 por ação. São mercados de acesso restrito, com lotes mínimos elevados e liquidez muito menor que o mercado público;
ETFs com exposição indireta: ETFs como o QQQ (Nasdaq 100) incluirão OpenAI e Anthropic assim que entrarem nos índices. ETFs temáticos de IA — BOTZ, AIQ — têm exposição a empresas do ecossistema. O ARKQ (ARK Autonomous Technology & Robotics) pode ter posições em empresas relacionadas;
Ações de empresas investidoras: Amazon (AWS Bedrock, maior parceiro da Anthropic), Microsoft (parceria estrutural com OpenAI), Google (investidor em ambas) e Nvidia (fornecedora de chips para ambas) são formas indiretas de ter exposição ao crescimento desses laboratórios de IA antes dos IPOs.
Fundos específicos BTG Pactual: O BTG Pactual criou um fundo especialmente para que investidores brasileiros tivesse acesso ao IPO da SpaceX. O mesmo foi feito com relação aos IPOs de IA, incluindo Anthropic e OpenAI.
Cuidados ao investir em IPOs de alto perfil
Volatilidade de abertura é estrutural: IPOs de alta visibilidade tendem a ter os primeiros dias muito voláteis. O float inicial costuma ser pequeno, amplificando oscilações, que podem ser causadas também por investidores especulativos: após uma eventual valorização inicial, realizam lucros e provocam uma queda mais acentuada das ações - o que, aliás, parece ter ocorrido com a SpaceX. Aguardar a estabilização dos primeiros 30 a 90 dias tende a ser mais eficiente do que comprar na euforia do primeiro dia;
Valuations trilionários exigem crescimento extraordinário: tanto a OpenAI quanto a Anthropic ainda operam com prejuízo ou margem mínima. Os múltiplos implícitos nos valuations atuais exigem crescimento sustentado por anos. Qualquer desaceleração pode gerar correções severas;
Risco regulatório crescente: IA é o setor mais escrutinado por reguladores globais em 2026. A UE implementou o AI Act; os EUA debatem regulação de modelos de fronteira. Mudanças regulatórias podem afetar modelos de negócio rapidamente;
Não concentre em um único IPO: mesmo que a tese de IA seja sólida, concentrar parte relevante da carteira em uma única ação de empresa recém-listada é um risco desproporcionalmente alto;
Obrigações fiscais no Brasil: ganhos em ações no exterior precisam ser declarados e tributados. Consulte sempre um profissional habilitado.
Checklist: como se preparar para os próximos grandes IPOs
Você entende a diferença entre os modelos de negócio da OpenAI (consumer-first) e da Anthropic (enterprise-first)?
Definiu qual percentual da sua carteira quer alocar em ações de IPOs de alto risco e alto potencial?
Considerou exposição indireta via ações de Amazon, Microsoft ou Google como alternativa de menor risco?
Tem horizonte de investimento longo o suficiente para absorver a volatilidade dos primeiros meses de negociação?
Está acompanhando os S-1 quando forem tornados públicos — para avaliar os números reais antes de decidir?
Conclusão: o maior ciclo de IPOs da história pode estar apenas começando
O IPO da SpaceX foi o evento do dia. Mas a perspectiva de OpenAI e Anthropic abrindo capital no mesmo ano — ambas potencialmente acima de US$ 1 trilhão — é o que torna 2026 um momento singular na história dos mercados financeiros.
Para o investidor brasileiro, o argumento de longo prazo não muda: o mercado americano é o epicentro da criação de valor tecnológico global. As empresas que definem a inteligência artificial, os pagamentos digitais e a infraestrutura de dados do futuro são americanas — e estão se tornando acessíveis ao investidor público pela primeira vez. A questão não é se vale atenção. É como dimensionar a exposição de forma adequada ao próprio perfil de risco.
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As informações deste artigo têm caráter educativo e não constituem recomendação individual de investimento. Datas e valuations de IPO são estimativas baseadas em fontes públicas disponíveis em junho de 2026 e estão sujeitos a alterações. Rentabilidade passada não garante resultados futuros. Consulte sempre um profissional habilitado antes de tomar decisões.








