Representação da marcação a mercado em renda fixa — relação inversa entre taxa de juros e preço de títulos, e as diferentes classes de risco de CDBs, Tesouro Direto, debêntures e CRIs

Educação Financeira

A oscilação da Renda Fixa, os títulos, indexadores e marcação a mercado

Publicado em 02 de julho de 2026Atualizado em 02 de julho de 202621 min de leitura

Com a Selic em 14,25% e títulos públicos pagando IPCA+8,5% ao ano, nunca foi tão importante entender como funciona a renda fixa de verdade. Por que ela oscila? O que é marcação a mercado? Qual a diferença entre Tesouro Direto, CDB, LCI, debêntures e CRIs? Guia completo para o investidor que quer entender o que está comprando — e os riscos que vêm junto.

Um dos equívocos mais comuns em finanças pessoais é o que está embutido no próprio nome: renda fixa. A palavra "fixa" cria a impressão de que esses investimentos não oscilam, não têm risco e entregam exatamente o que prometem independentemente do que acontece no mundo. A verdade é um pouco diferente - e entender como ela funciona é um dos passos mais importantes que qualquer investidor pode dar.

O cenário de junho de 2026 torna essa compreensão ainda mais urgente. Mesmo com a Selic em 14,25% e títulos do Tesouro IPCA+ chegando ao maior patamar desde 2008 — mais de 8% ao ano acima da inflação —, o Tesouro Nacional chegou a cancelar a oferta de títulos por falta de demanda. Mesmo com mesmo com taxas-recorde não houve interesse suficiente, o Tesouro acionou circuit breakers e suspendeu negociações por horas em sessões de volatilidade extrema. Em renda fixa.

Este artigo explica o que está por trás desses fenômenos — e o que o investidor precisa entender antes de alocar qualquer capital em qualquer título de renda fixa.

Resposta rápida: Renda fixa não é fixa porque o valor de mercado de um título oscila conforme as taxas de juros mudam. Quando os juros sobem, o preço dos títulos existentes cai — e vice-versa. Esse fenômeno, chamado marcação a mercado, afeta todos os títulos de renda fixa, do Tesouro Direto às debêntures. A volatilidade é maior quanto mais longo for o prazo do título. Os principais indexadores são a Selic (pós-fixado), o IPCA (inflação) e a taxa prefixada. As classes de risco vão do título soberano (mais seguro) ao crédito privado de baixa qualidade (mais arriscado). Entender essas diferenças é o que separa o investidor que usa renda fixa de forma inteligente do que apenas a aceita como "segura por definição".

Como funciona um título de renda fixa

Um título de renda fixa é, na essência, um empréstimo. Quando você compra um CDB, um Tesouro Direto ou uma debênture, está emprestando dinheiro para o emissor — seja o governo federal, um banco ou uma empresa — em troca de uma promessa de pagamento futuro com juros.

Esse contrato tem três elementos básicos:

  • Principal: o valor emprestado — quanto você investiu;

  • Taxa: a remuneração acordada — pode ser prefixada (uma taxa fixa definida no momento da compra), pós-fixada (atrelada a um indexador que varia, como a Selic ou o CDI) ou híbrida (uma parte fixa mais uma parte variável, como IPCA+ 6%);

  • Prazo: quando o emissor pagará de volta o principal mais os juros. Pode ser meses ou décadas.

Se você carregar o título até o vencimento e o emissor honrar o pagamento, você receberá exatamente o que foi prometido. É nesse sentido específico que a renda fixa é "fixa" — o contrato é determinístico se mantido até o final e se não houver inadimplência.

O problema começa quando o investidor precisa sair antes do vencimento — ou quando quer acompanhar o valor atual da sua posição. É aí que entra a marcação a mercado.

Onde nascem as oscilações

As taxas de juros são afetadas pelas políticas econômica, fiscal e monetária - ou seja, por decisões referentes à arrecadação e despesas governamentais e pelas que afetam a moeda diretamente. Tais decisões impactam os títulos de renda fixa em todas as suas variantes - dos soberanos aos de crédito privado.

A taxa de juros oficial (Selic) é decidida pelo Copom (Comitê de Política Monetária), que procura um equilíbrio entre a manutenção da inflação em níveis 'saudáveis' e o custo da dívida do governo. A taxa adotada pelo governo é tomada como referência pelo mercado - incluindo a percepção para o futuro, que afeta as taxas de mercado para os anos seguintes.

O Brasil enfrenta uma situação fiscal delicada, com a dívida atingindo patamares cada vez mais altos. E a chamada 'qualidade da dívida' não ajuda, uma vez que não vem de investimentos com potencial de contribuir para o crescimento de sua economia: ela vem de programas assistenciais, custo do funcionalismo e de subsídios ao INSS. Ou seja, recursos que retornam apenas em parte para o consumo e que não deixam legado.

Essa situação fiscal tem ao menos dois efeitos deletérios:

  • Exige um maior financiamento da dívida, com o governo buscando recursos pela emissão de novos títulos;

  • Impacta negativamente a credibilidade do governo por não demonstrar a responsabilidade fiscal e comprometer sua capacidade de pagamentos no futuro.

Com a redução em sua credibilidade, o governo é 'forçado' a elevar as taxas dos títulos da dívida para atrair interessados, o que impacta diretamente no custo dessa dívida.

Por que a renda fixa oscila: a lógica da marcação a mercado

Imagine que você comprou um título do Tesouro IPCA+ com vencimento em 2035, que paga IPCA + 6% ao ano. No momento da compra, essa era a taxa de mercado. Um ano depois, as condições econômicas mudaram — a inflação aumentou, o risco fiscal do governo cresceu, e o mercado agora exige IPCA + 8,5% para financiar o governo por esse mesmo prazo.

Aqui está o problema: seu título continua pagando IPCA + 6%. Se alguém quiser comprá-lo de você agora, por que pagaria o mesmo preço que você pagou, se pode ir ao mercado e comprar um título novo pagando IPCA + 8,5%? Não pagaria. Só compraria seu título por um preço menor — um preço que tornasse a rentabilidade efetiva equivalente aos 8,5% que o mercado agora oferece.

Esse ajuste de preço é a marcação a mercado. O valor do seu título caiu — não porque o governo vai deixar de pagar, não porque o contrato mudou, mas porque as condições de mercado mudaram e títulos novos oferecem rendimento maior. Se você vender agora, realizará uma perda. Se aguardar até o vencimento, receberá exatamente o que o contrato prometeu.

A relação inversa entre taxa de juros e preço do título é a lei mais fundamental da renda fixa:

  • Juros sobem → preço do título cai: títulos existentes, para venda no mercado secundário, ficam menos atrativos que os novos, que são vendidos com desconto maior. Uma liquidação antecipada dos títulos emitidos com juros mais altos, nesse caso, é feita com prejuízo.

  • Juros caem → preço do título sobe: títulos existentes, para venda no mercado secundário, ficam mais atrativos que os novos, que são vendidos com desconto menor. Uma liquidação antecipada dos títulos emitidos com juros mais baixos, nesse caso, é feita com lucro.

Um bom exemplo dessa movimentação ocorreu em junho de 2026: o Tesouro IPCA+ chegou a 8,5% — a maior taxa em quase duas décadas —, e os títulos emitidos anteriormente a taxas menores perderam um expressivo valor. Quem tinha posições longas viu a marcação a mercado gerar perdas significativas no curto prazo. Tais perdas, no entanto, são, de certa forma, 'virtuais': se as posições não são desfeitas e os títulos são carregados até o vencimento, a situação pode se inverter em determinado momento. E de qualquer forma, por mais que haja oscilação até a data de vencimento, ao final a taxa contratada entregará a rentabilidade correspondente.

Duration: por que títulos longos oscilam mais

Nem todos os títulos de renda fixa oscilam da mesma forma. A sensibilidade de um título a mudanças nas taxas de juros é medida pelo conceito de duration — que indica quanto tempo o valor investido leva para ser recuperado, e que é sempre inferior ao do vencimento do título.

Em termos práticos: quanto mais longo o prazo de um título, maior sua duration, e maior a oscilação de preço para cada variação de taxa. Um título com duration de 10 anos perde aproximadamente 10% de valor para cada aumento de 1 ponto percentual nas taxas de juros. Um título com duration de 2 anos perde cerca de 2%.

Isso explica por que o Tesouro IPCA+ 2055 (vencimento em 2055, duration altíssima) pode cair 20-30% em valor de mercado num período de alta de juros, enquanto um CDB pós-fixado com vencimento em 12 meses praticamente não oscila — sua duration é baixíssima.

A implicação para o investidor é direta: o risco - ou oportunidade - de marcação a mercado cresce com o prazo, em curva exponencial. Não existe título de renda fixa longo sem risco de volatilidade de preço no curto prazo.

Os indexadores: o que determina a rentabilidade de cada título

Pós-fixado: a Selic e o CDI

Títulos pós-fixados têm rentabilidade atrelada a uma taxa de referência que varia no tempo. No Brasil, os principais são a Selic e o CDI (Certificado de Depósito Interbancário), que historicamente fica muito próximo da Selic — geralmente 0,1 ponto percentual abaixo.

O Tesouro Selic (LFT) é o exemplo mais puro de título pós-fixado soberano. CDBs, LCIs e LCAs de bancos frequentemente são pós-fixados a um percentual do CDI — "CDB a 110% do CDI" significa que o título paga 110% da taxa CDI, qualquer que seja ela ao longo do período.

Vantagem dos pós-fixados: quando a duration é baixa o preço do título praticamente não oscila com mudanças nas expectativas de juros. São a escolha mais segura em termos de volatilidade de preço e funcionam como âncora de liquidez da carteira.

Desvantagem: se os juros caem, a rentabilidade cai junto. Quem está em 100% do CDI com a Selic em 14,25% vai ver sua rentabilidade diminuir conforme o Copom corta a taxa — e não pode travar a taxa atual para o futuro.

Prefixado: a aposta na trajetória dos juros

Títulos prefixados têm taxa definida no momento da compra, que é mantida até o vencimento. Uma NTN-F (Tesouro Prefixado) que paga 15% ao ano vai pagar 15% ao ano independentemente do que acontecer com a Selic — se ela subir para 20% ou cair para 5%.

Isso significa que comprar um título prefixado é, implicitamente, fazer uma aposta sobre a trajetória dos juros:

  • Se os juros caírem abaixo da taxa prefixada, o investidor ganha — trava uma rentabilidade superior ao que o mercado vai oferecer no futuro, e o valor de mercado do título sobe. Uma eventual venda antecipada pode ser realizada com ágio;

  • Se os juros subirem acima da taxa prefixada, o investidor perde — está travado numa taxa inferior ao que o mercado passa a oferecer, e o valor de mercado do título cai. A venda antecipada, neste caso, implica em deságio/prejuízo.

Em junho de 2026, prefixados longos chegaram a pagar 15,58% ao ano — uma taxa que não se via desde o governo Dilma. Quem comprar esses títulos agora e os juros caírem nos próximos anos capturará um ganho expressivo de marcação a mercado além da rentabilidade contratada. Por outro lado, quem comprou prefixados a 12% no ano passado está vendo seu título perder valor de mercado enquanto o mercado oferece 15%.

Inflação (IPCA+): o híbrido mais popular

Títulos indexados à inflação são híbridos: pagam a variação do IPCA mais uma taxa real prefixada. Um Tesouro IPCA+ 6% ao ano garante que o investidor vai receber a inflação do período mais 6% — protegendo o poder de compra real do capital.

Esses títulos têm duration alta (porque a parte prefixada — os 6% — oscila com as taxas de mercado) mas oferecem proteção estrutural contra inflação que os prefixados puros não oferecem. Em cenários de inflação alta e juros reais elevados — exatamente o cenário atual —, são a opção mais discutida.

O IPCA+ 8,5% de junho de 2026 significa que o mercado exige 8,5% de retorno real anual para financiar o governo brasileiro por prazos longos — uma taxa que reflete tanto a inflação persistente quanto a desconfiança sobre a trajetória fiscal do país, como discutido em artigo anterior desta série.

As classes de risco em renda fixa: do soberano ao crédito privado

Nem toda renda fixa carrega o mesmo risco. A hierarquia de risco em renda fixa é dete rminada principalmente pela capacidade e pela vontade do emissor de honrar seus compromissos — o chamado risco de crédito.

Títulos soberanos: o menor risco de crédito

Títulos emitidos pelo governo federal — o Tesouro Direto no Brasil, os Treasuries nos EUA — são os de menor risco de crédito, porque o governo pode sempre emitir moeda para honrar seus compromissos em moeda local. Isso não significa que são livres de risco — carregam risco de mercado (marcação a mercado) e, no caso brasileiro, risco de inflação se o governo optar por "inflar" a dívida. Mas o risco de calote formal é praticamente zero para dívida soberana em moeda local.

No Brasil: Tesouro Selic, Tesouro IPCA+ e Tesouro Prefixado são os instrumentos disponíveis no Tesouro Direto, com cobertura do Tesouro Nacional (não do FGC).

Nos EUA: os Treasuries são considerados o ativo livre de risco de referência global — usados como benchmark para todo o mercado de crédito internacional. Com a Selic americana (Fed Funds Rate) entre 3,5% e 3,75% em junho de 2026, T-Bills de curto prazo pagam acima de 4% ao ano em dólar — com risco de crédito praticamente nulo.

Títulos de emissão bancária: risco de crédito do banco

CDBs (Certificados de Depósito Bancário), LCIs (Letras de Crédito Imobiliário) e LCAs (Letras de Crédito do Agronegócio) são emitidos por bancos e financeiras. Têm risco de crédito do emissor — se o banco quebrar, o investidor perde o dinheiro que exceder a cobertura do FGC.

O FGC (Fundo Garantidor de Créditos) cobre CDBs, LCIs e LCAs até R$ 250.000 por CPF por instituição financeira e até R$ 1 milhão por CPF quando somadas diferentes instituições. Esse limite é válido pelo período de 4 anos, no caso de utilização da cobertura. Isso torna o risco de crédito bancário próximo de zero para valores dentro dos limites.

LCIs e LCAs têm uma vantagem fiscal relevante: são isentas de Imposto de Renda para pessoa física — o que torna uma LCI a 95% do CDI equivalente a um CDB a aproximadamente 112% do CDI para vencimentos acima de 2 anos (alíquota de IR de 15%).

Crédito privado: risco de crédito corporativo

Títulos de crédito privado são emitidos por empresas de setores diversos (não-bancário) como forma de captar financiamento diretamente no mercado de capitais. O risco de crédito aqui é da empresa emissora manter-se com capacidade de honrar o pagamento dos títulos emitidos.

Os principais instrumentos de crédito privado no Brasil:

  • Debêntures: títulos de dívida emitidos por empresas de capital aberto ou fechado. Podem ser simples (tributadas normalmente) ou incentivadas (isentas de IR para PF, destinadas a projetos de infraestrutura). As debêntures incentivadas — frequentemente chamadas de "debêntures de infraestrutura" — financiam projetos em energia, transporte e saneamento e têm isenção fiscal similar às LCIs/LCAs;

  • CRIs (Certificados de Recebíveis Imobiliários): emitidos por securitizadoras, lastreados em créditos imobiliários (financiamentos, aluguéis). Isentos de IR para PF. O risco não é da securitizadora, mas dos créditos imobiliários subjacentes;

  • CRAs (Certificados de Recebíveis do Agronegócio): estrutura similar ao CRI, mas lastreados em recebíveis do agronegócio. Isentos de IR para PF. O risco está na qualidade dos recebíveis agrícolas subjacentes;

  • FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios): fundos que compram carteiras de recebíveis de empresas. Mais acessíveis para o investidor qualificado. O risco depende da qualidade e diversificação dos recebíveis.

Crédito privado não tem cobertura do FGC. O investidor que compra uma debênture de uma empresa que vai à falência pode perder parte ou todo o capital investido — mesmo que a debênture pagasse uma taxa atrativa. O spread adicional em relação ao título soberano ou bancário (o chamado spread de crédito) é a compensação por esse risco adicional.

Ratings de crédito: como avaliar o risco do emissor

Para títulos de crédito privado, as agências de rating — Moody's, S&P Global, Fitch e, no Brasil, Fitch Ratings Brasil e Austin Rating — avaliam a capacidade de pagamento do emissor e atribuem notas que orientam o investidor.

A escala vai do grau de investimento (investment grade) ao grau especulativo (junk ou high yield):

  • Investment grade (AAA a BBB-): empresas com baixo risco de inadimplência. Pagam spreads menores sobre o título soberano, mas oferecem maior segurança;

  • High yield (BB+ e abaixo): empresas com risco de inadimplência mais elevado. Pagam spreads maiores para compensar o risco. São as chamadas "junk bonds" — não necessariamente ruins como investimento, mas com risco de crédito relevante que exige análise cuidadosa.

Para o investidor brasileiro pessoa física, a maioria do crédito privado acessível (debêntures, CRIs, CRAs) está no universo de investment grade ou próximo. Mas é fundamental verificar o rating antes de investir — e entender que ratings podem mudar ao longo da vida do título.

Como usar a marcação a mercado a seu favor

Se a marcação a mercado gera perdas quando os juros sobem, ela também gera ganhos quando os juros caem. E essa dinâmica pode ser usada de forma ativa pelo investidor que entende o mecanismo.

A estratégia de "surfar a queda dos juros"

Quando um banco central inicia um ciclo de corte de juros, os títulos prefixados e os IPCA+ de prazo mais longo se valorizam — porque foram emitidos a taxas mais altas do que as novas. Quem comprou esses títulos antes do corte captura tanto a rentabilidade contratada quanto o ganho de capital pela marcação a mercado positiva.

Exemplo: um investidor que comprasse Tesouro IPCA+ a 8,5% em junho de 2026 e o Copom cortasse a Selic ao longo de 2027-2028, fazendo as taxas reais dos títulos longos recuarem para 6%, veria o valor de mercado do seu título subir significativamente — mesmo antes de qualquer pagamento de juros. Quem vender nesse momento realizaria um ganho adicional de capital sobre a rentabilidade contratada.

Quando manter até o vencimento faz mais sentido

Se o objetivo é garantir a rentabilidade contratada sem exposição à volatilidade de marcação a mercado, a estratégia de carregar o título até o vencimento é a mais adequada. Nesse caso, o investidor ignora as oscilações de preço no meio do caminho — que são apenas ruído contábil — e recebe exatamente o que o contrato prometeu.

Essa abordagem funciona bem para:

  • Objetivos com data definida (aposentadoria, compra de imóvel, educação dos filhos) — o investidor compra um título que vence na data do objetivo;

  • Investidores com baixa tolerância à volatilidade — quem se incomoda em ver a carteira oscilar prefere não acompanhar a marcação a mercado no curto prazo;

  • Títulos de curto prazo — a volatilidade é naturalmente menor e o tempo até o vencimento é curto.

Quando a marcação a mercado é uma armadilha

A armadilha mais comum é o investidor que compra um título longo por achar a taxa atrativa — sem entender que, se precisar do dinheiro antes do vencimento num ambiente de juros mais altos, vai vender com perda. "Mas eu não vou precisar do dinheiro" é exatamente o que o investidor pensa antes de precisar.

A regra prática: nunca invista em títulos de prazo mais longo do que você consegue esperar confortavelmente. Se há qualquer possibilidade de precisar do dinheiro em 2 anos, não compre um título com vencimento em 2035.

O que realmente funciona na marcação a mercado

Nem todos os títulos de renda fixa sofrem marcação a mercado da mesma forma — e alguns praticamente não oscilam. Para entender quais títulos estão sujeitos a essa volatilidade e quais funcionam como âncora de estabilidade na carteira, leia o artigo complementar: Tesouro Prefixado, IPCA+, CDB e fundos: quais sofrem marcação a mercado?

Tributação em renda fixa: o que o investidor precisa saber

A tributação da renda fixa no Brasil segue a tabela regressiva do IR — quanto mais tempo você mantiver o investimento, menor o imposto:

  • Até 180 dias: 22,5%

  • De 181 a 360 dias: 20%

  • De 361 a 720 dias: 17,5%

  • Acima de 720 dias: 15%

Além do IR, incide IOF regressivo para resgates em menos de 30 dias — chegando a 96% do rendimento no primeiro dia.

Instrumentos isentos de IR para pessoa física: LCI, LCA, CRI, CRA e debêntures incentivadas. Essa isenção fiscal é relevante para a comparação de rentabilidade — uma LCI a 95% do CDI isenta equivale a aproximadamente 112% do CDI tributável para investidores na alíquota de 15%.

Renda fixa americana: Treasuries e o cenário de 2026

Para o investidor brasileiro com exposição ao mercado americano, os princípios de marcação a mercado e duration se aplicam igualmente — com uma diferença relevante: o risco de crédito do governo americano é praticamente inexistente, e a profundidade do mercado de Treasuries é muito maior.

Com o Fed sinalizado como hawkish em junho de 2026 — e nove membros do FOMC projetando alta de juros ainda este ano —, os Treasuries de prazo mais longo enfrentam o mesmo risco de marcação a mercado negativa que os títulos brasileiros. T-Bills de curto prazo (até 12 meses), porém, oferecem yield acima de 4% ao ano em dólar com duration muito baixa — a opção mais defensável para o investidor que busca renda fixa em moeda forte sem risco de marcação a mercado significativo.

Cuidados ao investir em renda fixa

  • Duration incompatível com o horizonte: o erro mais caro em renda fixa. Comprar títulos longos para dinheiro que pode ser necessário em breve é a receita para realizar perdas de marcação a mercado no pior momento;

  • Confundir isenção de IR com ausência de risco: LCIs, LCAs, CRIs e CRAs são isentos de IR, mas carregam risco de crédito e, em muitos casos, liquidez menor do que CDBs. A isenção compensa o risco apenas se o emissor for sólido;

  • Não verificar o rating em crédito privado: toda debênture ou CRI que paga spread acima do mercado está pagando pela assunção de risco de crédito adicional. Verificar o rating e entender o negócio do emissor é obrigação do investidor — não opcional;

  • Ignorar a concentração em crédito privado: diversificar entre emissores é ainda mais importante em crédito privado do que em ações, porque o risco de calote é binário — ou o título paga integralmente ou não paga;

  • Comparar rentabilidades brutas sem ajustar pela tributação: sempre compare rentabilidades líquidas de IR. Um CDB a 13% ao ano tributável pode ser equivalente a uma LCI a 11% ao ano isenta, dependendo do prazo e da alíquota.

Checklist: você entende o que tem na sua carteira de renda fixa?

  1. Você sabe o indexador de cada título (Selic/CDI, IPCA ou prefixado) e o que acontece com a rentabilidade em cada cenário de juros?

  2. Conhece o prazo de vencimento e a duration de cada posição — e se são compatíveis com seu horizonte?

  3. Entende a diferença de risco de crédito entre seus títulos soberanos, bancários e de crédito privado?

  4. Sabe quais posições têm cobertura do FGC e até qual valor?

  5. Verificou o rating dos emissores de crédito privado na sua carteira?

  6. Está comparando rentabilidades líquidas de IR — não apenas brutas?

Conclusão: renda fixa exige tanto cuidado quanto renda variável — só que diferente

Renda fixa não é o porto seguro sem riscos que o nome sugere. Carrega risco de mercado (marcação a mercado), risco de crédito (o emissor pode não pagar), risco de liquidez (sair antes do vencimento pode ser caro) e risco de inflação (rentabilidade real pode ser negativa se a inflação superar o rendimento do título).

O que renda fixa oferece — e que a torna essencial em qualquer carteira bem construída — é previsibilidade de fluxo de caixa, prioridade no recebimento em caso de falência do emissor (à frente dos acionistas), e instrumentos com perfis de risco muito diferentes que podem ser combinados para atingir objetivos específicos de prazo, rentabilidade e proteção.

O investidor que entende duration, indexadores, risco de crédito e marcação a mercado não está apenas mais protegido — está em posição de usar a renda fixa de forma ativa, aproveitando ciclos de juros para capturar ganhos que a maioria dos investidores não percebe que existem.

Use o Mapa do Investidor Internacional para entender como estruturar a parcela de renda fixa da sua carteira — doméstica e internacional — de forma adequada ao seu perfil. Se preferir conversar com nosso time, clique no botão vermelho.

As informações deste artigo têm caráter educativo e refletem dados disponíveis em junho de 2026. Taxas e condições de mercado mudam diariamente. Nada neste conteúdo constitui recomendação individual de investimento. Consulte sempre um profissional habilitado antes de tomar decisões.

Perguntas frequentes

Por que o valor do meu Tesouro IPCA+ caiu se o governo não deu calote?

Porque o valor de mercado de um título de renda fixa oscila conforme as taxas de juros do mercado mudam — mesmo que o governo continue honrando os pagamentos. Quando as taxas sobem (como ocorreu em 2026, com IPCA+ chegando a 8,5%), títulos emitidos a taxas menores ficam menos atrativos e precisam ser vendidos por preços menores para competir com os novos. Esse ajuste é a marcação a mercado. Se você mantiver o título até o vencimento, receberá exatamente o que o contrato prometeu — a perda é real apenas se você vender antes do vencimento.

O que é duration e por que ela importa?

Duration é uma medida de sensibilidade de um título a mudanças nas taxas de juros — essencialmente, o prazo médio ponderado dos fluxos de caixa. Na prática: um título com duration de 10 anos perde aproximadamente 10% de valor de mercado para cada aumento de 1 ponto percentual nas taxas. Um título com duration de 2 anos perde apenas 2%. Títulos mais longos têm duration maior e oscilam muito mais. O Tesouro IPCA+ 2055 pode cair 20-30% em valor de mercado numa alta de juros; um CDB de 12 meses praticamente não oscila.

Qual a diferença entre IPCA+, prefixado e Selic no Tesouro Direto?

Tesouro Selic (pós-fixado): acompanha a Selic, praticamente não oscila, é a opção de maior liquidez e menor volatilidade. Tesouro Prefixado: taxa definida na compra e travada até o vencimento — se os juros caírem, você ganha; se subirem, você perde em marcação. Tesouro IPCA+ (híbrido): paga a inflação mais uma taxa real prefixada, protegendo o poder de compra real — mas com volatilidade de preço pela parte prefixada. Para reserva de emergência: Tesouro Selic. Para apostar em queda de juros: Prefixado ou IPCA+ longo. Para proteção estrutural da inflação: IPCA+.

CDB, LCI e LCA têm cobertura do FGC — o que isso significa?

O FGC (Fundo Garantidor de Créditos) é um fundo privado mantido pelos bancos que cobre depósitos e investimentos em instituições financeiras até R$ 250.000 por CPF por instituição (limite global de R$ 1 milhão por CPF por período de 4 anos). Isso significa que, se o banco emissor do CDB quebrar, o FGC paga até esse limite. LCI e LCA têm a mesma cobertura. Essa garantia transforma o risco de crédito bancário em risco praticamente nulo dentro dos limites — o que explica por que bancos menores pagam mais: estão competindo pelo mesmo risco coberto, com spread adicional como diferencial.

Por que debêntures pagam mais que CDBs e Tesouro?

Porque carregam risco de crédito maior — o risco da empresa emissora — sem cobertura do FGC. O spread adicional é a compensação pelo risco de inadimplência. Uma debênture que paga CDI+3% está pagando 3 pontos percentuais além da taxa de referência pelo risco da empresa. Se a empresa for sólida (investment grade), esse spread é uma boa remuneração pelo risco assumido. Se a empresa tiver dificuldades financeiras, pode não honrar os pagamentos — e o investidor perde parte ou todo o capital. Sempre verifique o rating do emissor antes de investir em crédito privado.

Como usar a marcação a mercado a meu favor?

Quando um banco central inicia um ciclo de corte de juros, títulos prefixados e IPCA+ de prazo mais longo se valorizam — porque foram emitidos a taxas mais altas do que as novas. Quem comprou esses títulos antes do corte captura a rentabilidade contratada mais o ganho de capital pela valorização de preço. A estratégia 'surfar a queda dos juros' consiste em comprar títulos longos quando as taxas estão em nível historicamente alto (como em junho de 2026), esperando que o ciclo de cortes futuros valorize os títulos. O risco: se os juros subirem ainda mais, a marcação a mercado piora antes de melhorar.

Fontes e referências

Revisado por Equipe InvestGlobal em 02 de julho de 2026

João Augusto C. Fernandes

Escrito por

João Augusto C. Fernandes

Sócio da Wiser Investimentos | BTG Pactual e fundador da plataforma InvestGlobal.

Continue lendo

Artigos relacionados

Aprofunde o tema e conheça outros conteúdos sobre investimentos e planejamento patrimonial.

Michael Burry, investidor que previu a crise do subprime de 2008, e sua aposta bilionária contra Nvidia e Palantir sobre uma possível bolha de inteligência artificial

Estratégia de Investimento

Michael Burry e a bolha de IA: o investidor do subprime aposta contra Nvidia e Palantir

O investidor que previu a crise de 2008 antes de qualquer outro fechou seu fundo de gestão de terceiros para apostar mais de US$ 1 bilhão contra Nvidia e Palantir. Michael Burry diz que os hyperscalers de IA estão inflando lucros através de manobras contábeis na depreciação de chips. Entenda o histórico, a tese atual e o que isso significa para o investidor que acompanha o boom de inteligência artificial.

Representação da relação histórica entre língua dominante e poder econômico — do grego ao inglês — e a oportunidade de investimento nos EUA para o investidor brasileiro

Educação Financeira

A língua e o capital: por que investir no exterior é tão importante quanto falar inglês

Toda grande potência da história exportou sua língua junto com seu poder econômico e militar. Do grego de Alexandre ao latim romano, do árabe medieval ao francês diplomático, até o inglês que hoje é estudado em 135 países. Se há consenso entre os brasileiros sobre a importância do inglês, por que ainda há resistência em investir onde essa língua nasce — e onde está concentrada a liderança econômica e tecnológica do planeta?

As bandeiras de Irã e Estados Unidos, que, apesar da assinatura de um acordo de paz, ainda se vêem em um cenário volátil e incerto

Geopolítica e Investimentos

EUA e Irã: um acordo frágil e uma guerra cara ao mercado de petróleo

Após meses de guerra que incluiu o assassinato do líder supremo do Irã, o bloqueio do Estreito de Ormuz e a maior disrupção do mercado de petróleo desde os anos 1970, EUA e Irã assinaram um acordo descrito por analistas como o fim da aliança estratégica entre Washington e Israel. Os termos, mais favoráveis ao Irã do que o acordo de 2015, levantam questões sobre o que aconteceu entre a vitória militar de fevereiro e a negociação de junho — e o que isso significa para os investimentos globais.